O cante é uma ponte

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

No passado dia seis de Novembro o Grupo Coral de Ourique festejou mais um aniversário. E como é usual fazer-se nesta data especial, também este aniversariante se quis rodear de bons amigos. Vieram de Cuba, da Amadora, de Faro do Alentejo e de Paredes de Coura.
Desfilaram à vez pelas ruas ao pôr-do-sol, como se cada moda fosse sendo escrita, com letra bonita, com os pés arrastados no alcatrão.
Os passos eram serenos, bordados no silêncio dos ouvintes.
Quando o som de uns se ia perdendo na distância e no princípio da noite, abalavam outros preenchendo o espaço e o tempo das memórias com as suas vozes quentes e grandiosas.
Se de Cuba e de Faro do Alentejo, terras de planície e pouca sombra, era normal que viessem, será pois preciso explicar as razões que levaram à vinda dos outros dois grupos.
Quando falamos da Amadora, um conjunto de homens alinhados e de braço dado a cantar modas não é obviamente a primeira imagem que nos vem à cabeça. Mas o que aconteceu foi que aquelas vozes quando de cá abalaram levaram trigais, terra e lírios roxos nas almas e não há cidade nenhuma que rebente com as raízes da nossa identidade. Muito menos com esta melancolia boa.
Sim, há melancolias boas.
Coisas de auroras, calma, horizontes em fogo e tabernas antigas. E talvez por isso aqueles homens, a maior parte deles que nunca terá pegado numa foice, que terá quase sempre vivido entre prédios, chegados ao uníssono das vozes fizeram arrepiar a plateia no palco do auditório do Centro de Convívio,
Se falarmos de Paredes de Coura, Alto Minho, então o espanto é necessariamente maior. O que faz o Grupo Ré Maior em Ourique num encontro de grupos corais? Entre as duas vilas há tanto quilómetro de terra, tanto azul de céu, tanta serra a levantar o chão. Eles, cada um com o seu instrumento, nós só com a voz. Os de lá com rios e verdes eternos. Os de cá com planuras e lonjuras. Os de lá com tambores e cavaquinhos. Os de cá com cadência dos corpos e silêncios. Tempos diferentes de música e sentimento. Lá, um tempo que corre. Cá, um tempo que quase pára. Une-os a língua portuguesa e nós gostamos dos dois porque da união destes dois opostos nasce a essência da nossa cultura. De um lado o riso, do outro uma nostalgia.
E num palco, cantaram-se modas e canções que não são mais do que a vida toda a sair pelas gargantas. Algumas foram vidas de miséria e sofrimento, mas sempre, sempre de amores. Uns perdidos, outros nunca achados.
A noite foi um presente cheio de emoções. O Alentejo e o Minho embrulhados num papel de vozes com a Amadora a fazer o nó do laço.

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