O Bosão de Higgs

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Onofre Varela

jornalista / cartunista

Não saber do que se fala não impede que se opine. E a opinião de cada um tem o valor que tem, mais o que os outros lhe queiram dar, e por aí se fica. Mas os responsáveis de instituições, e os jornais de grandes tiragens e de distribuição nacional, estão obrigados a saberem do que falam. Nesta linha está o folclore que se fez à volta do bosão de Higgs, com os jornais a darem voz a padres católicos para opinarem sobre o que não diz respeito à Igreja.
Em linhas gerais e poucas palavras, podemos dizer que o cientista britânico Peter Higgs, trabalhando sobre umas ideias de Philip Anderson, interrogou-se, num documento publicado em 1964, sobre a possível existência de um bosão (partícula com determinadas características) que explicaria a razão de a matéria possuir massa.
Mas só agora — meio século depois — foi possível conseguir as condições técnicas para o desenvolvimento de experiências a propósito, com a construção, em 2008, do Grande Colisor de Hádrons (LHC), um laboratório localizado num túnel com 27 Km de circunferência, construído a 175 metros abaixo do nível do solo, na fronteira franco-suiça, próximo de Genebra. Um dos objectivos do LHC é explicar a origem da massa das partículas elementares e encontrar outras dimensões do espaço.
A 4 de Julho de 2012, cientistas do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN), anunciaram que na sequência dos seus trabalhos no LHC, descobriram uma partícula nova que pode ser o tal bosão de que Higgs previu a existência.
Entretanto, no início dos anos de 1990, o físico Leon Lederman, que ganhou o Prémio Nobel em 1988, escreveu um livro com a intenção de explicar ao público não especializado em ciência a teoria sobre o bosão de Higgs. O autor escolheu o título The Goddam Particle (A Partícula Maldita) para falar sobre o tal elemento difícil de descobrir e que ocupava todo o tempo a Higgs. Mas como o editor estava mais interessado em vender do que, simplesmente, publicar, num golpe de marketing, trocou o termo “Goddam” por “God”, e o livro The God Particle (A Partícula de Deus) foi um êxito de vendas! O nome pegou e não tardou que a imprensa apelidasse o bosão que Higgs procurava como sendo a “partícula de Deus”! O termo Deus é conhecido de todos, e bosão… ninguém sabe o que seja…
O meu espanto foi ver e ouvir, em Julho de 2012, as televisões e os jornais a entrevistarem religiosos sobre a partícula de Deus (como que se a Igreja tivesse algo a ver com as descobertas científicas!), talvez convictos de que a ciência acabara de encontrar a prova da existência real e concreta de Deus!…
A RTP procurou o padre e jornalista José Tolentino de Mendonça, na qualidade de director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura da Igreja Católica, para que falasse sobre o bosão e ele disse que “tudo o que é a procura da verdade interessa muito aos crentes e à Igreja” (!?), que mais poderia ele dizer?!…
O jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”, atingiu o paradigma de (…não sei que palavra usar!…) com a manchete “Comoção e entusiasmo” para se referir ao anúncio da descoberta do bosão de Higgs (!?). Deve estar tudo doido!…
O cientista Carlos Fiolhais teve a frase mais correcta e honesta: “Se existe Deus, todas as partículas são de Deus, ou, se não existe Deus, nenhuma partícula será de Deus”. Tão simples!
“Partícula de Deus” é apenas um nome. Um título para um livro, que foi encontrado com o interesse de vender, e o nome do livro não vale mais do que isso. Imagine que você, em 1990, encontrava um livro com o título Bosão de Higgs. Comprava-o?… E se fosse Partícula de Deus?…
Há termos que atingem a sensibilidade das pessoas e que, por isso, podem, mais facilmente, ser aceites ou repudiados. É o caso das “células-mãe”. Em inglês recebem outro nome. Não são referidas por “mother-cells”, mas por “stem [tronco, raíz] cells”.
A palavra “mãe” desperta paixões! Mãe há só uma. E tu não tocas na minha mãe, porque para mim ela é sagrada! Daí ser mal vista a manipulação das células-mãe! Já manipular as células-raíz… é outra coisa, mais permissível, o milho transgénico é isso mesmo. E aqueles que se preocupam com o termo “mãe” estão-se nas tintas para as manipulações do milho!
Já que falo em raíz, é curioso notar que os países de raíz católica são os que, estatísticamente, têm uma pior opinião da ciência. Porque será?!…

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