O Bombo da Festa

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Arsénio

eleito pelo PS - AM Beja

Quando toca em encontrar responsáveis pela crise, qualquer que seja, passada, presente ou futura, os portugueses não se fazem rogados. Vai tudo a eito. Nada escapa ao assertivo corte lusitano. Algumas críticas são fundamentadas e justas. Outras nem tanto.
Nestes últimos anos um dos bombos da festa tem sido o futebol, o que não deixa de ser espantoso num país em que uma grande maioria gosta da modalidade. Através das novas tecnologias de comunicação circulam regularmente notas que falam mal do mundo da bola nacional, como se fosse uma das causas dos problemas em que estamos mergulhados e como se, sem futebol, as pessoas fossem mais felizes, as reformas mais altas, os salários mais dignos e o desemprego quase nulo.
Falemos da Selecção Nacional que por esta altura disputa o Europeu do futebol. Não sei se à data da publicação desta crónica ainda tem possibilidades de seguir em frente ou se já ficou pelo caminho. Porém, deve assinalar-se que desde o Euro de 2000, na Bélgica e na Holanda, que estamos presentes em todas as fases finais de europeus e de mundiais da modalidade, por sinal a primeira e mais expressiva a nível mundial. Só países como a Alemanha, a Espanha, a Itália e mais dois ou três conseguiram o mesmo que nós alcançámos, por mérito, nesta década e meia.
Dizia Joachim Löw, selecionador da Alemanha, dias antes do embate contra Portugal neste Europeu, que era notável a qualidade do futebol português tratando-se de um país tão pequeno, periférico e economicamente pobre quando comparado com a grande maioria dos parceiros de continente. Pena que por vezes isto tenha de ser dito por quem é de fora e analisa as coisas com outra frieza e distanciamento. No futebol estamos sempre entre os 16 melhores do mundo. Não seria tão bom que assim fosse em tudo?
As críticas começam com a organização do Euro 2004. É bom que se recorde que foi um dos raros investimentos públicos que não conheceu derrapagens e o trimestre que englobou o mês de competição em território nacional foi o mais positivo da última década na nossa economia, muito por força do turismo suplementar que o futebol trouxe, evidentemente. Mais: uma prova dessa natureza potencia também o aumento do número de visitantes em anos posteriores e que portanto não têm contabilização imediata. Ainda assim, entendo que dos 10 estádios, entre os construídos de novo e os remodelados, nos deveríamos ter ficado por oito. Era mais que previsível que Leiria e Aveiro não tinham qualquer possibilidade de rentabilização a curto, médio ou longo prazo.
Porém, em 2004, para além da renovação qualitativa de muitos dos estádios, ganhámos um país virado, pela primeira vez na sua história, para a sua Selecção. A clubite típica deu lugar a um sentimento nacional, até então desconhecido entre nós, mas que já era habitual, há décadas, noutros países com grau de desenvolvimento muito superior a Portugal. Os portugueses aperceberam-se que existia um desígnio chamado Selecção. Compraram bandeiras, aprenderam o hino e juntaram-se em multidões junto a ecrãs gigantes nas suas cidades. A Selecção ganhou o público feminino para o futebol. Parte desse mérito – enorme –, que não julgava possível no nosso país, deveu-se a um homem: Luiz Filipe Scolari. Ele não teve receio em levar a Selecção ao encontro do povo. De levar os jogadores a visitar escolas, hospitais e outras instituições de natureza diversa. A Selecção ganhou o apoio popular. E daí até aos nosso dias, tem sido fantástico perceber que uma maioria larga das pessoas acompanha a vida da Selecção com interesse. O entusiasmo depende, como sempre, dos resultados. A única interrupção neste ciclo foi o tempo em que Carlos Queiroz esteve à frente da equipa nacional. Retirou as equipa do convívio dos portugueses, escondeu-a em longas palestras e sermões e o resultado foi o que se viu na África do Sul. Fraquinho, para ser simpático.
Por isso quando se diz que a Selecção é só circo, discordo. Esta Selecção Nacional é, porventura, a mais fraca, em termos globais, dos últimos 15 anos, mas se não for bem sucedida isso deve-se à falta de qualidade global da equipa (não se compare esta equipa com a do Mundial de 2006, por exemplo) e não a falta de concentração. Deixam a Selecção andar de charrete pelas ruas de Óbidos, saudada pela multidão. Deixem a Selecção ir visitar a Fundação Chamaplimaud, centro de excelência de medicina no nosso país e a nível mundial. A Selecção é das pessoas e deve cumprir um importante papel social fora do campo.
Entendo que existe um excesso de mediatismo à volta da equipa, mas isso não é culpa nem dos jogadores, nem da Federação e resulta antes da concorrência cega entre canais. Eu por mim só quero saber do jogo. Dos 90 ou 120 minutos. Não quero saber o que se passou no balneário, nem o que cantaram no autocarro a caminho do estádio. Julgo também que os jogadores mesmo tendo grandes “bombas” automóveis, que lhes pertencem e que compraram com o dinheiro que recebem, se deveriam apresentar no estágio com viaturas um pouco mais modestas face à situação do país. Mas isso são fait-divers. Agora critica-se a Federação, acusando-a de ser a que mais gasta na unidade hoteleira em que está instalada, das 16 equipas presentes na fase final. É falso. É mesmo das selecções que menos gasta em hotelaria de entre as presentes. Mas a verdade nem sempre leva a melhor.
Gosto de futebol com ou sem crise grave. Ninguém se esquece dos problemas do dia-a-dia devido ao futebol. Mas também não vem mal ao mundo que as pessoas acompanhem as grandes competições de futebol, nomeadamente europeus e mundiais, com maior atenção e falem mais de futebol por esses dias.

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