O anjo da guarda

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

A polivalência e principalmente a capacidade de improvisar eram factores decisivos para que um jogo de futebol do Palheirense pudesse decorrer. Uma direcção amarrada, quer pelos estatutos quer pelos feitios rígidos das pessoas, a essa coisa de ter de haver secções, departamentos e funções definidas estaria condenada ao fracasso. O presidente da direcção tanto podia marcar o campo como fazer a ficha de jogo. O presidente da assembleia tanto podia ligar o esquentador como fazer as sandes. O que num dia fez de delegado ao jogo, podia estar noutro dia no bar ou a vender rifas. O que estendeu a roupa no fim-de-semana passado, podia estar neste a fazer a linha porque o treinador tinha ido à caça. Abaixo as hierarquias. Viva a liberdade e a fraternidade. Viva o campeonato do INATEL.
Como a vida é uma roda da fortuna, uns dias está lá em cima e outros dias está cá em baixo, certo dia – eis que havia chegado o dia – coube ao Ferrugem fazer de massagista. Dado o seu variado e valioso leque de soluções, respostas e disponibilidades, qual actor apto a desempenhar qualquer papel por mais difícil que ele fosse, logo este homem dos sete ofícios e de mais de trinta vidas, ganhou contornos de irmão mais velho, assim uma espécie de anjo da guarda. Alinhada no meio do terreno de jogo, a equipa do Palheirense colocava inconscientemente a saúde das pernas, braços, dentes e cabeças nas mãos daquele curandeiro, do amanhador, do mestre, do cirurgião, do dentista, do otorrinolaringologista.
Sentado no banco, o Ferrugem sabia – aliás todos sabiam – que perante o tipo de futebol que aí vinha, era ele o elemento mais importante do banco. Nem o delegado ao jogo, nem os jogadores suplentes, muito menos o treinador eram tão influentes e tão decisivos como ele. Dos 11 jogadores dentro de campo e dos outros cinco suplentes, apenas dois se sentiam reconfortados. Tinham chegado à equipa havia pouco tempo.
A mala de massagista com a sua cruz vermelha era o farol que os jogadores olhavam nas jogadas de aflição. A braçadeira com a palavra massagista bordada a azul era o garante da ajuda e do socorro imediato. E o Ferrugem um 112 pronto a arrancar.
Numa jogada junto à meia-lua, duas canelas nuas chocaram de frente. O árbitro, impressionado pelos gritos de dor e pela violência da porrada, fez sinal ao massagista para entrar. O Ferrugem ajeita a braçadeira, agarra na mala, liga as luzes do sorriso e arranca. Ciente da sua função, corre desalmadamente para socorrer o atleta lesionado e quando passa junto ao juiz da partida, tal era a velocidade, a mala dos medicamentos abre-se. E de dentro dela não caíram nem algodão, nem água oxigenada, nem spray milagroso. Caíram isso sim, para aí uma dúzia de minis.
O árbitro ficou sem fala, quem é como quem diz, sem apito. O Ferrugem agarrou numa cerveja e disse:
“ Vai uma minizinha senhor árbitro? Olhe que elas estão fresquinhas!”.

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