(Não) aprender com o passado

Quinta-feira, 8 Agosto, 2013

Carlos Pinto

director do correio alentejo

"– A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela – continuava o Cohen – que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país… Ega gritou sofregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionária constante; nas vésperas de se lançarem os empréstimos haver duzentos maganões decididos que caíssem à pancada na municipal e quebrassem os candeeiros com vivas à República; telegrafar isto em letras bem gordas para os jornais de Paris, Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brasileiro, e a bancarrota estalava."

Esta passagem faz parte de Os Maias, de Eça de Queirós, integrando o muito estudado episódio do jantar no Hotel Central, onde o director do Banco Nacional, o sr. Cohen, explica como seria fácil Portugal entrar em falência. A obra data de 1888, ou seja, tem 125 anos, mas lendo as palavras acima replicadas é fácil perceber como entretanto muita pouca coisa mudou no país no que à economia diz respeito.
Ultrapassado o imobilismo da monarquia, as escaramuças da I República e as noites negras da Ditadura, Portugal continua sem aprender com os erros do passado. E mais de um século após a primeira edição da obra-prima queirosiana e muitos milhares de milhões de euros (e escudos) vindos de Bruxelas, o país insiste em padecer de alguns dos mesmos males: a (quase) ausência de produtividade e uma excessiva dependência do exterior, aliada ao constante temor dos “mercados” deixarem de confiar em nós.
O caminho de Portugal é, por isso, cada vez mais estreito e a correcção destes erros teima em surgir. O corte de pensões a quem já pouco tem ou o desinvestimento nas funções essenciais do Estado até podem ajudar a aliviar as contas do país, mas continua a faltar o essencial: a definição de uma real política de desenvolvimento e crescimento (por parte de quem governa) aliada a uma mudança de mentalidade colectiva, em que, por exemplo, trabalhar mais uma hora por dia não seja um drama (o que cabe a todos nós). Caso contrário, Portugal terá pouco futuro. Como escrevia Eça em 1888!

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