Mértola: 30 anos

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

As recentes descobertas arqueológicas em Mértola vêm aumentar, duma forma exponencial, os dados já existentes que, de uma vez por todas, vêm pôr a claro a importância histórica do último porto do Guadiana. Para além da pequena península onde assenta a “vila velha”, e que de certa forma reproduz uma operação sistemática de mais de 3000 anos, as escavações que se vêm realizando entre o cine teatro e o posto da GNR, oferecem um número impressionante de estruturas que indiciam estarmos perante um fenómeno urbano único no Portugal da antiguidade tardia e altomedieval. Definitivamente, e para os eternamente cépticos, é urgente que Mértola, não apenas o “projecto de Mértola”, mas o espaço urbano da vila, seja olhado de maneira distinta. Porque é importante do ponto de vista económico, porque é importante do ponto de vista turístico, porque é importante do ponto de vista histórico, porque é importante do ponto de pedagógico e formativo. O trabalho desenvolvido sob a batuta do doutor Cláudio Torres desde 1978 na “vila museu”, não pode continuar a ser um projecto quase que unicamente sustentado pelo esforço e os malabarismos da equipa do Campo Arqueológico e o apoio da Câmara da Municipal de Mértola. De uma vez por todas Mértola tem que ser entendido como um Projecto de Interesse Nacional. Um projecto museológico e formativo que vá muito para além dos ritmos e dos investimentos que têm regrado e mutilado o funcionamento deste projecto ímpar com 30 anos. Investimentos em espaços museológicos, em investigação e em divulgação, em lógicas de formação tanto para cursos técnico-profissionais como para cursos universitários. Apoios efectivos a projectos paralelos de infra-estruturas turísticas na área do alojamento, da restauração e da animação. De uma vez por todas, há que entender a intervenção em Mértola como um projecto nacional. E, faltando uma lógica regional forte em termos turísticos, comecemos por aqui. A potenciar aquilo que cada sítio ou cada concelho tem para oferecer. O ganho é para todos. Na perspectiva de trazer mais gente em idade produtiva, contrariando o definhar populacional a que assistimos, levando os números da população aos níveis existentes no século XVIII. No ano em que faz 30 anos o projecto de Mértola, melhor prenda não poderia chegar a esta terra lindíssima do que a descoberta das estruturas arqueológicas naquele troço entre o cine teatro e a rotunda. Há que ter a coragem de decidir e exigir.

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