Massagens

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Deitado na toalha, a tentação era grande. Ali estava ela, famosa, notícia de jornal, quente, nas bocas do mundo, envolta num tecido transparente, vaporoso, à saída do passadiço de madeira, queda, deitada à espera que se deitassem em cima dela. Era impossível não a ver. Famílias inteiras comentavam em surdina, as mulheres olhavam-na com inveja, os moços tremiam de calor e os homens espreitavam-na com ventosas nos olhos.
Na praia do Alvor a mesa de massagens é uma boa zona. 25 euros por quarenta e cinco minutos. 45 euros por uma hora. De prazer. Num mar de bons costumes, públicas virtudes, de calções até ao joelho, de soutiens escondendo mamilos, de bolas desenxabidas, de centenas de penitentes, abstinentes e monogâmicos e decretos da capitania marítima, a mesa de massagens é uma caixa de Pandora, uma boite a céu aberto, um antro de sexo, o canal Vénus, uma casa de meninas, um quarto alugado à hora.
Quando a cortina se fecha, levanta-se um burburinho na praia, um rumor corre entre dentes. Lá dentro da casa da Playboy só há silêncio, talvez óleos e fragrâncias e certamente gozo e deleite – não é uma onomatopeia, mas podia ser. No início não há novidade, todos nós sabemos como é que as massagens começam: a criatura (de deus ou do diabo?) detentora de um corpo com pele e carne deita-se sobre uma superfície confortável e espera que o ou a massagista, depois de embeber as mãos num óleo escorregadio e próprio, faça movimentos lentos para cima e para baixo, para trás e para a frente até que a pessoa que está ser alvo dessa esfrega comece a ter prazer desde as unhas dos pés até à ponta dos cabelos e arrepios bons, e incontrolados pela moral, o façam ronronar como uma gata com cio. Sim, porque ao contrário do que algumas criaturas pensam, a pele e a carne quando massajadas têm a tendência para transmitir ao cérebro sensações de volúpia. E isso é uma coisa extremamente saborosa e que normalmente se come de olhos fechados, às vezes de barriga para baixo e outras vezes de barriga para cima.
Uma hora de mãos calcorreando o corpo é muito tempo. É aí que reside o problema. Cinco minutos darão apenas para massajar ao de leve os pés ou a nuca, quanto muito as mãos roçarão as canelas ou deslizarão para o pescoço. O problema é que nos outros cinquenta minutos, as mãos se aborrecem dos pés e da cabeça, pois sabem que há outros talhões de carne mais férteis, mais sedentos, mais abandonados. O verdadeiro vício, a verdadeira transgressão, obviamente se a pessoa, tal a excitação, se aguentar até aí, acontece a partir da meia hora. É por essas alturas que a massagista faz a sessão de strip com nu integral. Aos quarenta e cinco minutos opta por uma debochada table dance com uísque à discrição e aos cinquenta e cinco termina o serviço com uma assombrosa lap dance ao som do “Encosta-te a Mim” do Jorge Palma.
E é assim que, desvendado o mistério, a sessão de massagens acaba. E não tenha problema, pois se se esquecer do preservativo, as massagistas estão sempre prevenidas.

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