Mariana ma non troppo

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Ana Ademar

actriz

a. Diz-se que para fazer rir Deus, basta fazermos planos. Não sou crente. Em Deus. Aquele ser todo-poderoso que castiga. Mas gosto de pensar que alguma coisa nos acompanha. E se lhe chamar Deus me parece estranho, chamo-lhe então ser, que não traça destinos, não castiga, nem ajuda. Acompanha. Alguém que nos entenda por dentro, melhor que nós próprios. É demasiado difícil enfrentar o mundo sem companhia. E por mais gente que tenhamos em volta, é certo, que estamos sós. Não dizia o outro que cada homem é uma ilha? Pois então. Eu concordo. Por mais pontes que construamos, há sempre uma parte da ilha que a ninguém é permitido visitar, conhecer, explorar… e parece-me que é melhor assim.
Bom, mas se ele existe, então ri muito. Porque o que mais temos são planos. De vida, de viagem, profissionais… e poucas mais vezes que nenhuma, correm como planeado. Cá está o sal da vida. O inesperado, o impensável, o imponderável acontece. Sempre. Se dúvidas houver, basta ver os orçamentos das obras públicas.

b. Quer-me parecer que a vida num convento não é fácil e que pouco mais haverá que fé e muito trabalho. É certo que o meu convento tem mais purpurina que os demais, mais luz artificial, mais variedade no que ao hábito propriamente dito diz respeito, mas é mais aquilo que nos une que aquilo que nos separa. (Não deixa de ter alguma graça fazer esta comparação na terra da freira mais conhecida do mundo que, tudo leva a crer, não teria grande vocação para o ser.)
Cada vez mais me convenço que uma vida ligada às artes não é bem uma vida, é mais um sacerdócio. E também não é exactamente uma escolha que se faz, é mais uma vocação. Impõe-se agora o esclarecimento: não entendo a vocação e o talento como sinónimos. É perfeitamente possível (e frequente) que um exista sem o outro. Ao invés de lhe chamar vocação poderia designar a “coisa” de chamamento, é igualmente religioso, adapta-se bem à metáfora que estou a tentar esgalhar e talvez até clarificasse um pouco o sentido do que estou a tentar dizer, que para ser sincera, a esta altura, ainda não percebi bem o que é.
Alguém que por razões várias (nomeadamente mau karma) sente o apelo e a ligação à arte (seja ela qual for) entra numa espécie de clausura, acabando definitivamente com as hipóteses de ter uma vida dentro dos parâmetros do dito normal. Não há separação entre vida profissional e pessoal – as coisas misturam-se, as coisas não são coisas; as coisas são só uma coisa. E é necessário que assim seja. A ferramenta mais necessária a um criador artístico é a vida. E é por isso que não a pode viver simplesmente, analisa-a.

c. Dizia-me um professor que o teatro é a vida concentrada. Dizia ele que no palco se podem viver as emoções todas da vida em duas horas. Dizia-me que o teatro é uma espécie de concentrado de vida. Em duas horas as vidas (que levam uma vida inteira a serem vividas) nascem e morrem. Brincar com a vida a vida toda pode provocar danos irreparáveis.

d. Fui saltando de um tema para outro não sei bem porquê, mas aposto que isto anda tudo ligado.

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