Lutar contra a pobreza

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Maria Fernanda Romba

Distribuídas ao longo de todo o ano, existem datas que, a nível nacional, europeu ou mundial, se convencionou dedicar a uma causa. Basta uma pesquisa atenta no Google ou noutro motor de busca na Internet para ficarmos a saber que há dias para quase tudo, uns mais importantes do que outros, como é óbvio.
Logo a começar o ano, há o Dia Mundial da Paz para lembrar aos mais distraídos que, sem ela, é-nos muito difícil viver… em paz!! Mas há muitos mais. Há o Dia da Mulher que alguns defendem não se justificar, trinta e muitos anos depois de Abril… Há o Dia da Água, a apelar ao uso moderado dum bem indispensável e que pode escassear; o Dia da luta contra o Cancro, o Dia da Liberdade, o Dia da Criança, o Dia do Ambiente e por aí fora, numa lista enorme que ocupa, já, grande parte dos dias do ano.
Estas datas ou efemérides objectivam alertar e consciencializar a sociedade e poderes públicos para a luta contra as várias formas de discriminação, nuns casos, para a preservação de espécies ou outras questões do foro ambiental, ou ainda, para a necessidade de adopção de novos comportamentos e atitudes que contribuam para um mundo melhor, mais justo, onde todos tenham lugar. Mas um lugar digno.
Nesta panóplia de efemérides existe também um dia, mundial, dedicado à luta contra a pobreza e exclusão social. É o dia 17 de Outubro.
A comemoração desta data fez-me reflectir sobre a real importância mas, sobretudo, eficácia desta e outras comemorações.
O que conseguimos em todos os dias 17 de Outubro em que lembrámos a data, a existência da pobreza e a necessidade de combatê-la, bem como tudo o que lhe está associado?
Quem é pobre não tem apenas menos dinheiro. Quem é pobre tem menos acesso a uma habitação condigna. Quem é pobre tem menos condições para poder fazer uma alimentação equilibrada. Quem é pobre tem menos acesso à saúde e à educação, apesar de uma e outra serem gratuitas ou tendencialmente gratuitas. Quem é pobre nem sempre é excluído, mas quem é pobre sente-se excluído. Porque num mundo de permanente apelo ao consumo, regrado ou desregrado, fica de fora quem não tem poder de compra.
A luta contra a pobreza não pode estar datada. Não pode ter um dia. Tem que ser permanente, contínua, persistente. Talvez por isso, ou talvez para isso, se tenha agora instituído não um dia para dedicar a esta luta, mas um ano. Um ano inteiro.
2010 é o Ano Europeu da Luta Contra a Pobreza e a Exclusão Social. A Europa decidiu colocar a pobreza na ordem do dia, disponibilizando cerca de 17 milhões de euros para lutar por esta causa e, com ela, cada um dos seus Estados-membros obriga-se a implementar medidas e a afectar recursos para o mesmo efeito.
2010 é, pois, o ano consagrado à luta contra a pobreza. Isso deveria dar-nos esperança. A todos. Não apenas aos que se encontram na pobreza ou no limiar da pobreza, mas a todos os que, felizmente, a vêm mas não a sentem. Na pele. Porque a pobreza não afecta apenas os pobres, reflecte-se em toda a sociedade e prejudica o desenvolvimento económico de cada país.
Na Europa, uma das regiões mais ricas do mundo, cerca de 78 milhões de pessoas vivem aquém do limiar da pobreza, sendo que dessas, 19 milhões são crianças, situação que a crise mundial veio agravar significativamente.
Se é utópico considerar que existem soluções milagrosas para acabar, de vez, com a pobreza, não será utópico esperar que a instituição dum ano inteiro consagrado à luta contra a pobreza deverá, ao menos, servir para nos mobilizar a todos para uma causa que tem de ser de todos – governos, autarquias, associações, empresas, cidadãos.
Apesar da esperança que quero sentir, devo dizer, para ser sincera, que não sei se um ano chega. Mas gostaria muito que chegasse. Porque se a pobreza não pode nem deve ser uma fatalidade, não deixa de ser uma vergonha para cada um de nós e uma forma de infelicidade colectiva.
2010 deverá, pois, ser um primeiro ano no combate contra a pobreza e a exclusão social. Porque esta tem que ser uma luta sem tréguas e desfalecimentos, em que todos temos que nos empenhar. Se quisermos poder usufruir das enormes vantagens económicas, políticas e sociais duma sociedade sem pobreza. Mais justa, mais solidária e mais feliz.

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