Junho cobriu-se de negro

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Lúcio

director da Rádio Pax

O monte da Herdade de Água dos Peixes, entre Albergaria dos Fusos e Alvito, era, para mim, o lugar mais bonito do mundo. Lá viveram, muitos anos, os meus avós paternos, mais cinco ou seis famílias. Rapazes, só eu, que passava lá oito ou dez dias por ano, e o Chico, o filho do Bento. A Rosa era a única rapariga. Eu e a Rosa tínhamos seis anos, o Chico tinha sete. Nunca hei-de esquecer o pelourinho, imponente, que ficava no meio do largo do monte, onde nós brincávamos, felizes, tardes inteiras, com espadas de cana atadas com baraços e escudos de madeira. Também recordo os pardais, provocadores, na figueira do quintal. As galinhas barulhentas a pinicar os figos no chão, maduros do tempo. Nunca hei-de esquecer o solar, cheio de história, com janelas povoadas de fantasmas. No exterior, o pátio em pedra de calçada, a capela, uma oliveira velha, o chafariz de água férrea onde os animais bebiam. Nas traseiras do solar a horta onde os donos da herdade mandavam semear batatas e feijão e tomates e outros de que eu agora não me lembro. As pereiras, os marmeleiros, as nespereiras, o laranjal, a perder de vista, onde eu e o Chico, o filho do Bento, íamos roubar laranjas que não chegávamos a comer. Também me lembro do tanque enorme, misterioso, cheio de água, à sombra dos chorões que tocavam as nuvens. Eu era criança e apetecia-me mergulhar naquele tanque cheio de água, mas tinha medo. Alem disso, estava proibido de chegar lá perto. A minha avó proibia-me de chegar lá perto.
Lembro-me de estar deitado e ouvir os meus avós que, ainda antes do sol nascer, se levantavam da cama e atravessavam o corredor entre os quartos. A minha avó punha a cafeteira do café ao lume e preparava o farnel que o meu avô levaria para o trabalho. O meu avô enchia o lavatório branco com água fria, depois, lavava a cara, depois, murmurava,
– Tá fria!
depois, comia pão e linguiça cortada às rodelas com a navalha que usava na algibeira das calças, depois, acompanhava com o café que a minha avó lhe preparara, depois, reunia-se com os outros homens, junto ao pelourinho, e esperava que o feitor chegasse com as ordens de trabalho. No campo, os dias eram duros e longos. Homens e mulheres trabalhavam de sol a sol. A luz quente batia naquelas pessoas. Naqueles rostos resignados. Naquelas mãos cruas, lavradas pelo tempo.
Depois do jantar, quando o sol desaparecia por detrás do cabeço, as mulheres e os homens sentavam-se à porta de casa, apanhando o fresco abafado do mês de Junho. A essa hora ouvia-se o silêncio da planície e sentia-se a leve melancolia das searas torradas do sol. Alguns homens sentavam-se nos degraus do pelourinho. A minha avó sentava-se na cadeira dela. O meu avô sentava-se na cadeira dele. O meu avô velhinho sentava-se no banco de madeira onde só ele se sentava. Eu sentava-me numa cadeira pequena que parecia de brincadeira, pintada de azul, que a minha avó me comprou na feira de Nossa Senhora d’Aires. Para mim, o meu bisavô foi sempre avô velhinho. A minha avó chamava-lhe pai
– Venha almoçar, pai.
e eu achava isso estranhíssimo. Só quando falava comigo o tratava por avô velhinho.
– Deixa o avô velhinho em paz!
A vizinha Joana, mulher do Bento e mãe do Chico, vinha dar dois dedos de conversa à minha avó. Sentavam-se as duas no poial que ficava em frente da casa dos meus avós. Falavam de pessoas que não estavam presentes, pessoas mortas, pessoas que viajaram para outros montes, outras aldeias, outros países e por lá ficaram. Os homens falavam da lavoura, da ceifa e de outros assuntos que eu, com seis anos, não atingia. Faziam cigarros com as mãos, fumavam, cuspiam no chão vestígios dos cigarros. Os cães deitavam-se aos pés dos seus donos. De vez em quando ladravam contra qualquer coisa que só eles sabiam.
No final de tarde daquele dia quente e abafado, quando a minha avó me chamou para jantar, ninguém imaginava o que estava para acontecer. Depois do jantar, o mesmo ritual: o meu avô sentou-se na cadeira dele, a minha avó na cadeira dela e o meu avô velhinho sentou-se no banco de madeira onde só ele se sentava. Alguns homens sentaram-se nos degraus do pelourinho. Nessa noite a vizinha Joana, mulher do Bento e mãe do Chico, não apareceu para dar dois dedos de conversa à minha avó. Nem o Bento foi fumar com os outros homens nos degraus do pelourinho. Sentia-se uma aragem pelos campos, pelas árvores, pelas pedras da calçada. Nessa noite o Chico chegou a correr, lavado em lágrimas, os seus gritos quebraram o silêncio da planície e a leve melancolia das searas torradas do sol, eram gritos de aflição, de terror, de medo, de angústia, eu não sabia o que se estava a passar, o meu amigo chorava e eu não sabia porquê, os homens e as mulheres de mãos na cabeça, algumas mulheres também choravam, os homens tinham ar grave, segredavam, o meu amigo, sofria e eu não sabia porquê, queria ajuda-lo mas não sabia como, os meus olhos cheios de água, a minha avó afagava-lhe o cabelo como se chorasse, o meu amigo, soluçando, esgotado, o seu rosto esgotado.
– Quero o meu pai, vizinha, por favor.
As mulheres e os homens disseram que ele se matou. O Bento, marido da vizinha Joana e pai do Chico, enforcou-se nesse início de noite do mês de junho. O meu amigo tinha perdido o pai. A partir desse dia, o monte da Herdade de Água dos Peixes deixou de ser para mim o lugar mais bonito do mundo.

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