Há Estado neste Estado?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

As figuras de Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento, protagonistas maiores da Justiça em Portugal, tiveram um comportamento banal e utilizaram uma linguagem caricata nas relações com a comunicação social sobre o caso das escutas de Sócrates/Armando Vara, que leva a que o cidadão comum tenha para com a Justiça um único sentimento: o de medo! Apenas e só esse. Medo de cair nas suas mãos. E a certeza, cada vez mais axiomática, de que nas malhas da Justiça nunca cairão os mais fortes. As contradições nas afirmações de um e outro; a fórmula minimal na linguagem e nos tiques de imagem daquelas duas figuras maiores do Estado português; para além do vazio de conteúdos que chegaram até nós, deixa-nos muito desconfiados sobre a Justiça que temos. Contudo, a sociedade informada e a classe média portuguesa acha normal a tudo o que se está a passar e não reage. Foi assim no Freeport, no caso Casa Pia, no Apito Dourado … Indiferença, mais indiferença e outra vez indiferença, é o que se sente e vê na rua. E aqui incluímos o anfiteatro de S. Bento, onde impera um silêncio tácito, quase comprometido. Mas algo vai mal no país mais antigo da Europa. Aqui onde as instituições assumem o deixa andar espreitando de vez em quando por cima por cima do ombro, para ver se vem alguém. E se até agora pouco ou nada tem sido feito, o mau estar que caiu sobre o primeiro-ministro no folhetim da envolvência, ou não, da figura “Vara”, já habitual no mundo das desconfianças, merece uma resposta e uma atitude do primeiro magistrado da nação. Mas, neste Estado embriagado onde assistimos ao aumento do défice, ao aumento do desemprego, à recuperação microscópica da economia, há uma pergunta que se exige: onde tem andado o senhor Presidente da República? Que é feito da referência que se exige ao timoneiro de um país democrático? Por muito menos pôs Jorge Sampaio o Santana Lopes a milhas. Mas hoje e aqui, Cavaco Silva está ausente. Completamente ausente. E, ou toma definitivamente uma atitude corajosa, esclarecida, no mínimo paliativa, ou então acabou de perder, definitivamente, o papel de supervisor da Democracia. Porque a Justiça não o está a ser, seguramente. E, se este país for o país esclarecido e atento que acho que, no fundo, de vez em quando somos, pode começar a arrumar as malas porque a recandidatura já foi. Porque do Presidente da República espera-se mais. Muito mais. Assim como de um primeiro-ministro envolvido em tudo o que é desconfiança que nasce neste pantanal lusitano. A onda de desconfiança que atravessa a sociedade portuguesa sobre o cidadão José Sócrates é motivo mais do que suficiente para haver uma posição firme e determinada do primeiro-ministro José Sócrates sobre o enxovalho que diariamente cai sobre o seu nome. E não apenas aquelas afirmações com olhar de virgem ofendida de quem tem o mundo todo contra ele. Perante este cenário, a solução volta outra vez para o poder judicial. E a resposta tem que ser urgente, célere, objectiva, coerente e, acima de tudo, imparcial.

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