Flash

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Quando saiu do estúdio de fotografia tinha a certeza que as fotografias não eram dele.
Aliás, desconfiou logo da forma demasiado adulta e enigmática como o trataram quando entrou na loja. Como vai o senhor? Quantas fotos precisa? Deseja pagar com dinheiro ou cartão? Já viu que não há meio de chover! Ainda morrermos é todos à fome.
Tinha ido sozinho. Enquanto caminhava embevecido pelas ruas, sentia-se orgulhoso da sua autonomia e da responsabilidade que a mãe lhe dera em, com uma nota de cem escudos dobrada em quatro e apertada na palma da mão direita, ir fazer o governo de tirar fotografias de meio corpo para o bilhete de identidade.
Entrou e guardou a chave do carro e o telemóvel no bolso do casaco. Em cima de uma mesa, o monitor de um computador ia mostrando fotografias de casamentos, baptizados, provas de todo o terreno e festas de escola.
Mirou-se ao espelho. Vestia calções de fazenda, camisa florida abotoada até ao pescoço, suspensórios, meia branca e sapatos afivelados de verniz. E para, futuramente, poder causar boa impressão sempre que mostrasse o documento, a custo de muita água e várias passagens de um pente grosso, prendera os caracóis numa marrafinha.
Achou muito estranho que o fotógrafo em vez de fazer subir o banco naquele movimento rotativo para a esquerda, enquadrando o seu metro e quarenta na objectiva, fizesse precisamente o movimento contrário, condenando-o a ficar a olhar para cima. Quem é que tem fotografias no bilhete de identidade a olhar para cima?!
Que cor de fundo quer? Que cor de fundo quero? Então mas há mais possibilidades do que a floresta ou o céu azul colados num cartão e encostados à parede atrás de nós?
Se é para cartão, usamos este fundo mais neutro. Olhe em frente. Não se mexa agora. Perfeito. Vamos tirar umas quantas para podermos escolher. Já está.
O fotógrafo ligou a máquina ao computador e no monitor foram surgindo fotografias com pequenas diferenças na expressão do sorriso.
Encostado ao balcão, com a nota de cem escudos dobrada em quatro e apertada na palma da mão direita, olhava para o desfile de fotografias daquele homem à espera que aparecessem as suas.
Demore o tempo que precisar. E se não gostar de nenhuma, voltamos a tirar. Esteja à vontade.
Com os caracóis já a desarranjar a marrafinha e o botão da camisa a apertar-lhe o pescoço, desdobrando a nota, disse que levava seis das mais sorridentes.
Enquanto o fotógrafo imprimia as fotografias, as cortava e as colocava num pequeno invólucro com janela, as lágrimas assomaram-lhe aos olhos.
Sentia uma enorme vergonha. Não era merecedor da confiança que a mãe tinha depositado nele. Falhara na primeira tarefa que lhe fora pedida e agora não era capaz de resolver a situação. Era um moço metido nuns calções e apenas os suspensórios lhe seguravam os olhos para não chorar.
Como é que ia contar à mãe que gastara o dinheiro e levava as fotografias de um homem?
Ligou o carro, mas antes de arrancar desviou o olhar do espelho retrovisor.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima