Felizmente, há Abril na memória

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

Quantas vezes nos perguntamos de que é feita a nossa memória? Para que serve a memória, como nos serve e porque há pessoas que a têm mais viva, clarividente e objectiva que outros? É o espelho da nossa realidade ou, simplesmente, o que resta dessa realidade? É o discurso construtivo do nosso mundo no silêncio dos nossos medos e das nossas vitórias ou a dúvida constante da ausência de respostas para a realidade que, pouco a pouco, vamos recuperando do imaginário desejado? Podia ir por aqui fora sem me socorrer das milhares de respostas que se nos oferecem em qualquer manual. Ou entrada da Wikipédia e páginas quejandas. Para o caso pouco importa. E é neste contexto que recordo o dia 16 de Março de 1974, que tem para mim este gosto especial de jogar com a memória. Todos os anos encontro mais um episódio que preenche esse dia. E é neste momento o resquício da memória de um tempo em que era miúdo a crescer. Corria o ano de 1974. Apenas pelo discorrer automático da memória, recordo-me do meu 16 de Março. A minha mãe passando a roupa a ferro (de carvão) à espera que o meu pai viesse do trabalho. A tarde longa sem notícias e a luz da rua a fugir, obrigando a acender mais cedo o candeeiro a petróleo e, mais cedo ainda, a ter de recolher à cama. O olhar da minha mãe, sempre lacrimoso, quase entrava dentro do pequeno rádio roufenho onde as notícias escasseavam. Umas palavras vagas de que havia uma revolta, as lembranças dos que iam à guerra, a falta de notícias de fulano de tal e o filho do senhor David que tinha morrido na Guiné. Ou a do Fernando que por lá tinha ficado sem dar notícias. Misturam-se palavras e gestos. E tempos sem fim de espera anormal do regresso a casa do meu pai. O meu irmão mais novo, e as nossas brincadeiras de antes de jantar, de repente desapareceram. A missa na rádio e as cartas das madrinhas de guerra ouviam-se de uma forma diferente do remanso dos outros dias. Não sei que dia era da semana. Nem me interessa ir ver. Nem sei se todas as imagens que me entram pelo silêncio da memória têm que ver com este dia. Sei que no dia seguinte, ou no dia seguinte ao dia seguinte, a redacção do teste de Português não me foi devolvida. A professora guardou-a e disse-me que gostava de ficar com ela. Eu, muito orgulhoso, mas sem perceber porquê, disse que sim. A minha mãe não sabia ler, o meu pai poucas palavras decifrava e, por mim, não via ali grande problema em não ter mais um papel no dossier. Recebi essa carta pouco mais de um mês depois. Li-a orgulhoso na sala para toda a gente. Sei que falava do medo da guerra, dos que sofriam a ausência, das mulheres vestidas de luto uma vida inteira, de um vizinho que tinha fugido, de uns homens de chapéu que passavam todos os fins de semana a procurar fugidos no bairro. Acabava, recordo-me bem, falando daqueles que não tinham luz para poder esperar o pai mais tempo, nem de poder ver na televisão as imagens da guerra que fazia a minha mãe chorar. Não sei se serve para alguma coisa este rebuscar da memória do 16 de Março de 1974 e do dia em que os militares das Caldas da Rainha tentaram trazer a Liberdade mais cedo. Mas é um exercício que me leva muito para lá da minha adolescência de aluno da Escola Industrial e que apreendia então que não queria ir à guerra. Felizmente, há Abril na memória.

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