Em março a natureza renova-se. Os dias são mais luminosos, a temperatura é mais amena, as roupas mais leves, as pessoas mais felizes. Em março o céu é mais azul e a vida regenera-se em cada nova flor.
É assim desde o princípio dos tempos e em março de 1974 também não seria diferente.
Numa floricultura dos arredores de Lisboa cuidam-se de várias espécies. De entre elas, os cravos vermelhos. Cravos esses que hão de enfeitar os canos das espingardas dos soldados daqui a umas quantas semanas e assim nominar aquela que foi a mais bela das revoluções. Portugal e os seus cravos vermelhos. Será então motivo de espanto e objeto de notícia por esse mundo fora.
Mas, para já, ainda teremos de esperar resignados, abatidos pela vida que nos calhou em sorte. Para o comum dos portugueses era assim que a existência era encarada: conformados, cabisbaixos e obedientes.
No entanto, outros haviam que pensavam de modo diferente e, aos poucos, iam encostando às cordas a pandilha dos acinzentados.
O golpe do Movimento dos Capitães há muito que está em marcha e prestes a eclodir. Teria de ser no dia e hora certas para que as possibilidades de êxito fossem asseguradas, de modo a evitar o desnecessário derramamento de sangue.
Porém, existiam outros para quem a paciência há muito se esgotara, como foi o caso do major Armando Ramos, que saiu do Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha, a 16 de março de 1974, levando consigo cerca de 200 homens entre soldados e oficiais, com a insensata e precipitada ideia de derrubar o Governo.
O chamado “Levantamento das Caldas”, não foi acompanhado pelas restantes unidades militares. O golpe ficou-se por uma viagem atribulada até aos arredores de Lisboa, onde eram aguardados por forças leais ao Governo. Deram meia volta e regressaram ao quartel, onde, após demoradas conversações, se renderam, sendo os oficiais transferidos para o presídio da Trafaria.
Esta intentona teve o condão de alertar o Movimento dos Capitães para a urgência de cumprir o plano delineado.
Ainda em março de 1974 teve lugar um outro importante acontecimento. No dia 29, no Coliseu dos Recreios, deu-se o Encontro da Canção Portuguesa, com o pretexto de serem entregues os prémios da Casa da Imprensa referentes a 1972. A lotação estava esgotada e as poucas entradas à venda aconteciam no mercado negro ao dobro e triplo do valor inicial. Ou seja: 50 ou 60 escudos. Uma pequena fortuna para a altura!
Mais do que um encontro, era um confronto. Se dum lado estava a nata dos chamados cantores de protesto, com Zeca Afonso à cabeça, do outro lado estava em peso a censura, a Polícia de Segurança Pública e, mais disseminada, mas também em grande número, a PIDE.
A censura começou por rejeitar 30 das canções apresentadas e, à última da hora, o espetáculo, esteve para não se realizar.
Como os bilhetes estavam todos vendidos, seria imprudente tomar tal atitude de consequências imprevisíveis.
Ao Zeca apenas lhe aprovaram duas canções: “Milho Verde” e uma outra em forma de moda alentejana chamada “Grândola Vila Morena”.
O povo não arredava pé. Lá por essas quase duas da manhã subiram todos os intervenientes ao palco para interpretarem uma derradeira canção. Zeca havia preferido o “Venham Mais Cinco” ou outra mais politizada. À falta de repertório autorizado, disse à assistência: “Bem, lá temos de cantar a Grândola de novo!”
Alguns dos militares do Movimento estavam presentes e arrepiaram-se ao ouvir 5.000 vozes entoar aquela canção.
A canção deixara de pertencer ao Zeca. Era do povo. Estava na rua. Portanto, estava encontrada a senha que dali a três semanas seria o sinal inequívoco de que a revolução já não podia voltar atrás.

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