Desconsumir e Redistribuir

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Jorge Pulido Valente

A palavra “desconsumir” não existe nos dicionários mas na situação de crise em que nos encontramos e nos tempos de profunda e prolongada austeridade que temos pela frente deveria passar a constar do nosso vocabulário quotidiano.
Na verdade, deveríamos adoptar rápida e convictamente o conceito e a atitude que o termo encerra, porque é indispensável e inadiável adoptar um estilo de vida em que o consumismo desenfreado em que se baseia o actual modelo de desenvolvimento económico seja necessariamente substituído pelo consumo responsável e sustentável.
Dou como exemplo simples o que algumas famílias fizeram neste Natal.
Ao invés de gastarem umas centenas ou mais de euros em prendas, combinaram entre os vários membros da respectiva família procurarem em casa objectos de qualquer tipo, desde bibelots a roupa passando por equipamentos, livros ou produtos gastronómicos, que nunca tivessem sido utilizados e sortearam-nos entre eles. Depois ainda houve oportunidade para algumas trocas para ajustamentos aos gostos e necessidades específicas de cada um.
Garanto-vos que foi muito mais divertido, que todos ficaram satisfeitos e sobretudo que se evitou consumo desnecessário e inútil.
Este poderá ser um primeiro pequeno mas decisivo passo no sentido de uma prosperidade sem crescimento, um outro novo conceito que deveríamos trabalhar, promover e incorporar como base do novo modelo de desenvolvimento.
No mundo actual não e possível continuar a crescer sem agravar o desequilíbrio ambiental e por em perigo a sustentabilidade do planeta e sem pôr em causa irremediavelmente a coesão e a paz social.
O objectivo da prosperidade sem crescimento implica a adopção de um novo paradigma que substitui o ter pelo ser, que valoriza os aspectos imateriais em detrimento dos materiais, que defende e promove os valores humanos universais e que privilegia a preservação do planeta.
Finalmente, uma outra palavra-chave que temos que incorporar no nosso pensamento diário e no discurso político e redistribuição.
Com efeito, tudo o que ficou dito acima só fará sentido se, de facto, forem criados mecanismos fortes e eficazes que permitam introduzir processos de redistribuição da riqueza.
Nesta perspectiva, poderia, designadamente, ser obrigatório que os super ricos que ganham exageradamente acima do que seria necessário para satisfazer as suas necessidades e, inclusive, exigências supérfluas, criassem um Fundo Individual de Responsabilidade Social, por elas gerido dentro de prioridades definidas pela comunidade em que vivem.
Um exemplo interessante de como tal se poderá processar foi dado pelo deputado europeu do BE – que nem sequer é rico – que dos excedentes do seu vencimento criou bolsas de estudo, com grande sucesso e resultados muito importantes e interessantes.
Não seria muito mais lógico, justo e gratificante para todos, até para os próprios que aqueles que são pagos por todos nós a peso de ouro – sejam eles futebolistas, artistas ou banqueiros – desviassem, obrigatoriamente, dos milhões que ganham e gastam em luxos desnecessários e ostensivos, uma parte para alimentar o referido Fundo Individual de Responsabilidade Social, destinado a apoiar projectos propostos pelas comunidades locais?

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