Defender a Região – unidade e coerência nas posições

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

José Filipe Murteira

professor do Ensino Secundário

No passado dia 21 de Maio, nove entidades da nossa região (Associação de Municípios, Instituto Politécnico, Turismo do Alentejo, as associações de empresários, comerciantes e agricultores, entre outros), reuniram-se com um objectivo bem definido : defender o Aeroporto de Beja, como complemento ao de Lisboa, a chamada “solução Portela + 1”, de que se tem falado ultimamente. Essa defesa foi, nomeadamente, expressa num documento entregue ao primeiro-ministro.
Uma boa notícia, sem dúvida, quando essas entidades, representadas por pessoas com posições e interesses diferentes, se unem em torno de uma causa comum, a defesa de um equipamento que tão atacado e denegrido tem sido.
Este exemplo é, no entanto, uma excepção à regra que, infelizmente, tem vigorado quando se trata de lutar pelos direitos das populações do nosso território. É que são muitos os exemplos que exigiam a unidade e não a divisão, deixando de lado o acessório e privilegiando o essencial.
Basta olhar à nossa volta e deparamo-nos com uma espécie de “síndroma dos 50 (ou 60, ou 70)”: faltarão cerca de 50 km para nos ligarmos à A2, cerca de 60 de linha férrea electrificada, até Casa Branca, cerca de 70, para concluir a ligação ao Algarve, via IC 27, ou ainda os 60 da “esquecida” EN 260, até à fronteira de Ficalho. Estamos a falar, é claro, de ligações rodo/ferroviárias a partir de Beja, mas outros muitos outros exemplos existem, no distrito e na região, nessa e noutras áreas, que exigem essa unidade, sem complexos nem preconceitos, sobretudo os de natureza político-partidária.
Tal como o fizeram os seus colegas de Coimbra, Lousã e Miranda do Corvo, que se juntaram ao movimento cívico que reivindica o metro do Mondego, para substituir o desactivado ramal da Lousã, também seria muito bom vermos os autarcas de Beja, Cuba, Alvito, Viana do Alentejo, Vendas Novas, unidos, ao lado dos cidadãos que lutam pelas ligações directas a Lisboa, por comboio; ou os de Beja, Mértola, Alcoutim, Castro Marim e Vila Real, lutando por um IC 27, amputado há muitos anos e que tarda em avançar para além dos 40 km já construídos; ou ainda os de Beja, Ferreira, Grândola, Alcácer, Santiago e Sines, juntos pela A26, que tão tarde arrancou e que vai parando e avançando aos soluços.
É claro que estes são apenas alguns exemplos, que não são exclusivo dos actuais executivos municipais, mas que reflectem aquilo que atrás foi escrito: quando se trata de defender os interesses das populações, as cores partidárias devem ficar de lado, para que se fale a uma só voz, perante os poderes instalados na centralista e macrocéfala Lisboa (sejam eles de que partido forem).
Finalmente, tão importante como a acção intermunicipal, deve ser a actuação dos políticos locais e regionais (autarcas e deputados), perante esses poderes lisboetas. E aí, infelizmente, temos assistido a maus exemplos, protagonizados por eleitos que mudam de posição, consoante o seu partido está ou não no poder. Falamos, é claro, dos partidos do chamado “arco do poder”, PS e PSD e, nada melhor para ilustrar estas mudanças, do que a luta pela electrificação da linha férrea e pelo Intercidades Beja-Lisboa, e as posições tomadas ao longo dos meses por esses políticos.
Daria, certamente, para uma ou duas crónicas de jornal, mas, para exemplo, refiro apenas a errática (e oportunista) postura do actual presidente da câmara de Beja, bem documentada em vários suportes mediáticos – rádios, tvs, jornais, internet, etc.
Começou por aceitar e defender a proposta da CP, que previa a solução do transbordo em Casa Branca, induzindo em erro, mais tarde, a população de Beja, ao escrever no boletim municipal que iria haver cinco intercidades diários. Quando surgiu o movimento dos cidadãos (mais tarde, o Beja Merece), a sua primeira posição foi desvalorizá-lo (no dia 19 de Janeiro de 2011, em entrevista ao Jornal da Tarde da RTP), tratando esse assunto como algo de um qualquer “movimento”, em vez de lhe exprimir o seu apoio.
Esse “apoio” (ou colagem) só chegou uma semana depois, quando os cidadãos de Beja se manifestaram pela primeira vez no largo da estação (o famoso “assalto à estação ferroviária”). Com cerca de 500 pessoas presentes, claro que o presidente da câmara não podia “perder o comboio” e deixar de aparecer na primeira linha da luta.
Finalmente, para terminar esta novela trágico-cómica, não faltou o recado paternalista, deixado numa entrevista a um jornal local (14 Outubro 2011), em jeito de reprimenda a um grupo de irresponsáveis que estavam a afastar os investidores, com a sua luta “contra o fim dos comboios” (coisa que só pela sua cabeça deve ter passado).
Para concluir, apetece apenas dizer: “apoios” desses, não obrigado.

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