De olhos em bico

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rui Sousa Santos

médico

O Dalai Lama é uma figura inegavelmente simpática. Diplomata exímio, tem feito os possíveis e impossíveis pela divulgação e sensibilização do mundo para a causa do Tibete ocupado. Vítima, por vezes, de algum pragmatismo excessivo por parte dos Estados (veja-se a sua última visita a Portugal), resiste ao que por vezes nos parece constituir uma humilhação com uma superioridade tão simples que parece nem existir. Faz-me lembrar muito uma figura já desaparecida da cultura portuguesa: Agostinho da Silva. Percebe-se, nos dois, essa capacidade avassaladoramente atraente de falar das coisas da vida como se elas e ela fossem, realmente, simples. A capacidade de se fazer entender, sem dúvidas, o discurso cristalinamente transparente. E o desprendimento material, a sabedoria de saber viver com o mínimo necessário, apenas ao alcance de espíritos verdadeiramente dotados.
A China precisa, politicamente, dos Jogos Olímpicos de Pequim como de pão para a boca. Constituirão uma espécie de cereja em cima do bolo do reconhecimento do Império do Meio como grande potência mundial. A ideologia rendeu-se definitivamente ao mercado: o “desvio de direita” de Liu Chao-Chi e a morte provocada de Lin Piao constituíram, nos finais dos anos Sessenta do século XX, a derrota de uma visão provavelmente sensata de alguma “evolução na continuidade” e abriram a porta ao radicalismo que ultrapassou Mao pela “esquerda”. Mao facilitou as coisas entregando a alma ao criador e Deng Xiao Ping assumiu-se como a alternativa ao caos, com paciência de chinês. Nixon e os sucessores acompanharam com atenção o processo e entregaram o assunto aos CEO’s de umas quantas <i>corporations</i>, que fizeram bem o seu trabalho. Hoje a China é, efectivamente, uma grande potência, com uma taxa de crescimento arrepiantemente alta aos olhos ocidentais. Mas à custa de quê: de trabalhadores sem protecção e sem quaisquer direitos? De uma exploração desenfreada de mão-de-obra pouco qualificada? De uma degradação ambiental sem precedentes (ou com precedentes semelhantes na ex-URSS), com uma poluição atmosférica ímpar nas grandes metrópoles urbanas? De uma censura e de uma repressão política que deixam Orwell corado de modéstia? De um sistema penal hiper-repressivo que assassina, anualmente, através de condenações à morte, largos milhares de chineses (com o “delicioso” pormenor de a bala de execução ser debitada à família do executado)? Já Mao Zedong encolhia os ombros com desprezo perante as consequências de um hipotético confronto nuclear fronteiriço com a URSS (as relações sino-russas nunca foram brilhantes…): o impacto da morte de vinte milhões de chineses (o número que, na altura, se falou como possível consequência do confronto para o lado chinês) era desprezível, num país com mais de 1 200 000 de pessoas! Quer isto dizer que estamos perante um dos mais elaborados exercícios de cinismo político a que a Humanidade teve oportunidade de assistir – se a globalização permitiu a deslocalização das produções para cenários a melhor preço, permitiu, também, a deslocalização de alguma acumulação de riqueza. A grossa fatia de renminbao foi aplicada em títulos de dívida norte-americana, que o génio W. e capangas fizeram crescer de forma impressionante (lembremo-nos de que Bush recebeu, de Bill Clinton, um orçamento superavitário!), e a verdade é que os amigos chineses têm a mão a apertar a parte mais dolorosamente saliente da economia norte-americana. Assim sendo, juizinho, meus caros…
A chama olímpica passou já por Paris e Londres, com múltiplas manifestações pró-tibetanas a tentarem e conseguirem estragar o efeito pretendido pelas autoridades chinesas. Pôr o Tibete na ordem do dia, como exemplo de um povo a quem foi negado o direito à autodeterminação, é uma aposta ganha. A felicidade “socialista” que a China ofereceu os tibetanos em 1957 foi por estes claramente recusada. Provavelmente porque adoram ser governados de modo feudal, detestam o desenvolvimento e são avessos à democracia.
Para além das inúmeras lojas, cabe-nos, agora, a fábrica de pilhas. É bem vinda, cria empregos numa zona onde há poucos. Atenção a possíveis efeitos poluentes, evitem-se desde o princípio. Recebam-se bem os investidores e os trabalhadores chineses. Mas mostre-se-lhes que em Portugal se respeitam os direitos dos trabalhadores. Por muito que, em Portugal, quem lambe “internacionalisticamente” as botas políticas do PCC grite o contrário. Vê-se…
Medalha de mérito do concelho de Beja em 2008? Para Hu Jintao, pois então!

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