Cultura nos tempos de Crise

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

José Filipe Murteira

professor do Ensino Secundário

No passado dia 17 de Dezembro, na sua crónica diária no “Diário de Notícias”, o crítico de televisão Nuno Azinheira referiu-se ao conteúdo de um programa matinal de uma das três televisões generalistas, dedicado a duas localidades cuja “originalidade” reside no nome : Picha e Coina. Escusado será dizer que, a pretexto desse nome, o apresentador, nome graúdo na praça televisiva, terá feito o seu próprio espectáculo, com as perguntas mais “ousadas” (e disparatadas) aos habitantes locais.
Tamalho lixo televisivo terá sido produzido que, no final, o cronista rematou o texto com uma palavra bem elucidativa, para classificar o programa : deprimente.
Tão deprimente como outros produtos similares que diariamente são oferecidos ao público, principalmente a quem apenas usufrui dos quatro canais abertos (e continuará, mesmo em tempos de TDT). Dir-se-á que é o que o povo gosta ou ainda que é o que vende publicidade, factores determinantes na época do “vale tudo” ou da “livre concorrência” (e não apenas na televisão).
No momento que estamos a passar, em que a palavra depressão facilmente se associa a outras como crise, austeridade ou desemprego, mal vai a sociedade que se deleita com o “grau zero” da condição humana, em que pessoas são usadas (e abusadas) como nos circos da Roma Antiga. Deprimente, é a palavra apropriada para bem definir essa sociedade.
É neste contexto que a Cultura deveria assumir um papel central, na promoção e valorização do ser humano, como Bento de Jesus Caraça preconizava, há 80 anos: “A aquisição de cultura significa uma elevação constante(…) do ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico; significa, numa palavra, a conquista da liberdade” (Conferência realizada em 25 de Maio de 1933).
Deveria assumir, mas não assume. Ao invés, em nome da crise (que é bem real, não vale a pena escamotear), temos assistido nos últimos tempos a uma completa desvalorização da actividade cultural, que não se resume apenas a uma questão de mais ou menos verbas.
Desde logo, simbolicamente, ao perder o estatuto de ministério, factor agravado por um secretário de Estado que, tanto pode afirmar que “não há políticas culturais”, como logo a seguir dizer que o património devia ir para a pasta da economia (por cá, também há responsáveis regionais que não se coibem de produzir disparates semelhantes, ao afirmarem publicamente que essa área devia ser entregue a privados).
Essa desvalorização não é, no entanto, exclusiva do governo. Sinais como a eliminação da editoria de cultura da Agência Lusa são preocupantes, como se o país não precise de conhecer o que se vai fazendo neste sector, a resistência de artistas, grupos, associações, que no teatro, na música, na dança, no cinema e nas outras áreas, não baixam os braços e continuam estoicamente a trabalhar.
Por outro lado, não se pode cair na tentação de, também no campo cultural, nos rendermos ao facilitismo e ao populismo de programações que apenas têm em vista as “casas cheias”, quer sejam salas ou espaços ao ar livre. É que, se nuns casos essa opção até resulta em espectáculos interessantes e que procuram a tal “elevação” de que Caraça falava, noutros assiste-se ao telelixo transposto para os palcos.
É por isso que fico desconfiado quando, por exemplo, leio, a propósito de uma peça de teatro que passou pela nossa cidade na passada semana (com uma campanha de marketing pouco habitual), tratar-se de “uma experiência teatral nunca antes vista nos palcos portugueses”, que prometia “muitas gargalhadas”. E lembro-me, imediatamente, de um dos mais marcantes momentos de teatro, entre outros, a que assisti em Beja, em 1998, ainda na Casa da Cultura. Perante uma plateia cheia de um público dominado pela força das palavras de Eurípedes (traduzidas pela nossa maior especialista em estudos clássicos, Maria Helena Rocha Pereira), um grupo de excelentes actores da Escola da Noite, de Coimbra, levou à cena uma peça, forte no seu conteúdo e difícil, para quem actuava e para quem assistia, “As Troianas”.
Tal como olho com algumas reservas para alguns produtos de duvidosa qualidade artística, protagonizados por jovens actores que usam sem hesitar o playback que os produtores dos “carteiros paulos” ou dos “rucas” lhes oferecem e que as crianças e progenitores avidamente consomem. Perante isto, recordo-me de espectáculos produzidos e apresentados em Beja, com uma qualidade que poderia ombrear com o que de melhor de faz no país : “Nós Todos Três”, estreado em 1999 pela companhia Arte Pública no Centro Cultural de Belém, ou “Debaixo do Céu”, estreado em 2004, na Casa da Cultura, duas excelentes produções de teatro musical, são bons exemplos de como é possível a qualidade na “Cultura nos tempos da Crise” (título inspirado na obra de Gabriel G. Marquez, Amor nos tempos de Cólera).

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