Croniqueta

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

Para o cidadão comum, nunca o mundo se tornou mais irreal do que aquele a que assistimos actualmente em Portugal. Acima de tudo pela total desresponsabilização em que navegamos e, em particular, pelo sentimento de impunidade que respiramos. Aprendemos com a democracia o sentido mais perfeito da liberdade; do respeito pelo indivíduo e pela capacidade de imaginar uma sociedade justa. Contudo, e em particular a partir de finais dos anos Noventa, assistimos a uma espécie de descambar colectivo, em que se percebe tudo menos o rumo que a sociedade, no seu sentido mais lato, está a tomar. E basta olhar à nossa volta, ler os jornais ou ouvir os títulos dos telejornais. Acredita-se que um primeiro-ministro seja violentamente enxovalhado, apelidado de mentiroso, constantemente alvo de chacota por uma licenciatura tirada sabe-se lá como e, esse mesmo primeiro-ministro assobie para o lado, não responda, ou venho com resposta tipo enigma que, em algumas situações como foi no comício de Guimarães, põe em causa a própria democracia, ao reafirmar que não havia democracia na Madeira!? E que o dirigente do maior partido da oposição, acabado de ser eleito para combater o descrédito em que caiu o seu partido, não se digne mostrar ao país aquilo em que é diferente do partido do poder (se é que tem alguma coisa de diferente) e que, em resposta à forma como chegou ao poder, tenha já atrás de si o espectro do descrédito levantado em primeiro lugar pelo seu próprio partido? E acredita-se que num país de brandos costumes, em que se assiste diariamente a assaltos a bombas de gasolina, bancos, ataques à mão armada a ourivesarias, <i>carjackings</i>, aumento das apreensões de droga, venha um responsável pela segurança nacional dizer que se trata apenas de situações aparentes, pois os crimes são menores do que em anos anteriores? E pode acreditar-se num país que assiste a um aumento constante de famílias endividadas, sobretudo pela incapacidade de pagar o crédito à habitação, que continuemos impávidos e serenos sem alterar as nossas preocupações no que toca às necessidades de emprego, educação cívica e cultural das populações, apoios à maternidade, etc.? E que se assista ao aumento constante dos lucros dos bancos e das petrolíferas? Que seja cada vez mais comum nascer-se nas ambulâncias ou as campanhas de solidariedade para as crianças do hospital A ou um aparelho para o hospital B. Esquecemo-nos que o direito à habitação, à saúde, à educação, está consagrado na Constituição, e que isso significa que todos, mas todos sem excepção, têm direito a esses postulados constitucionais. É evidente que tudo isto é cada vez mais assustador e que estamos a voltar, a passos largos, à sociedade da caridadezinha. Assusta-me essa ideia, mas acima de tudo, assusta-me a incapacidade em mostrarmos a nossa indignação.

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