Corajosos, mas…

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

A poucas horas das eleições autárquicas, muitos esperavam que a crónica desta semana fosse dedicada às eleições! Escolho não o fazer! Sou apoiante de uma candidatura, aceitei ser coordenador do seu programa eleitoral, pelo que sinto-me despido da isenção com que gosto de nortear as minhas crónicas! Por outro lado – e sem que as minhas palavras sejam uma crítica a quem pensa diferente – entendo eticamente que não devo usar a crónica num jornal para fazer apelos eleitorais!
Mas é impossível numa época onde se cheira e transpira eleições, num tempo em que em quatro meses fomos chamados a votar três vezes, não tecer considerações sobre a qualidade da nossa democracia!
Escrevi algumas vezes e mantenho, que em todos os partidos, existem pessoas boas e dignas, gente honesta que oferece o seu tempo para o bem comum, porque genuinamente acreditam no que defendem, porque a forma com que vêem o mundo influenciam as soluções que preconizam: da mesma forma, em todos os partidos e sem excepção, existem pessoas que se movem por interesses egoístas e mesquinhos, pessoas cuja única convicção é procurar da forma mais simples tratar da sua vidinha! Sempre assim foi e sempre assim será, não tenhamos ilusões! Pelo que o desafio dos partidos, sejam de esquerda, da esquerda verdadeira ou da verdadeira esquerda, do centro ou de direita é combater para inverter os números, ou seja, aumentar a participação daqueles que se movem por convicções genuínas e honestas, diminuindo o número daqueles que actuam por oportunismo! E não me parece que essa guerra esteja a ser ganha!
Admiro a coragem de quem se candidata a um qualquer cargo público, todos aqueles que, independentemente dos partidos ou movimentos, têm o arrojo de se submeter ao escrutínio dos eleitores! Afirmo-o, não tanto por aceitarem as regras da democracia e deixarem que o povo se pronuncie sobre as suas propostas, mas por a paciência de se sujeitarem a achincalhamentos públicos, más-línguas e mesquinhez daqueles que se acham melhores e mais inteligentes que todos, mais dignos e puros! Ouvir e ler o que se diz e escreve de Sócrates, Cavaco Silva e Ferreira Leite, ou mesmo Portas e Louçã, o desdém com que publicamente se ridiculariza e humilha quem cometeu o único crime de lutar por aquilo que acredita!
Desde há muito que defendo uma reforma do sistema político: permitir que os movimentos independentes concorram às eleições e a limitação dos mandatos, foram um primeiro passo que merece ser aplaudido! Mas insuficiente: exige-se uma reforma administrativa com o reforço dos poderes dos municípios e a diminuição do seu número, a redução do número de deputados e a criação de círculos uninominais, a redução e determinação do número de ministérios e a auscultação parlamentar dos ministros ou a obrigatoriedade de serem eleitos deputados, para citar algumas! Por fim, tudo o que se defende será irrelevante, sem que a investigação ao crime económico seja profícua, sem que os tribunais actuem de forma célere, sem que o cidadão possa confiar na Justiça, aniquilando esta estranha sensação de politização das investigações judiciais, que descredibiliza um Estado que se deseja de Direito!
Escrevi neste mesmo espaço há três semanas que “quando se aproximam duas eleições de crucial importância para o futuro da região e do país, importa meditar sobre as estranhas razões que não justificam que em 35 anos de democracia tenha baixado tanto a qualidade média dos nossos eleitos, tenha crescido tanto o desinteresse dos cidadãos face ao poder político, bem visível na crescente taxas de abstenção e votos em branco! Como deveria ser motivo para uma profunda reflexão, as razões que justificam que cada vez mais as pessoas se afastem da política e se recusem ocupar cargos públicos!” e estou convicto que a parte substancial das culpas reside nas estruturas partidárias! Mas não todas: boa parte das responsabilidades também são de cada um de nós, desta estranha forma de viver a portugalidade, a tendência de confundir o trigo com o joio, de aceitar como natural a pequena promiscuidade, a forma cândida como desculpamos comportamentos indesculpáveis! E antes de clamar contra quem nos governa, importa nunca esquecer que foi o nosso voto que fez deles os nossos representantes…

Antes de clamar contra quem nos governa, importa nunca esquecer que foi o nosso voto, que fez deles os nossos representantes.

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