Continua tudo na mesma

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

<b>1– </b>Muita gente escreveu no início da actual crise económica e financeira que era essencial mudar os agentes económicos responsáveis pelo descalabro que etingiu a Europa e a América. Ninguém previu a falência do banco Lehman Brothers, nem ninguém descobriu as fraudes gigantescas do sr. Madoff. Também em Portugal, ninguém descortinou o que se passava no BPP e no BPN. E estamos a falar de senhores, como o dr. Vítor Constâncio, pagos a peso de platina.
Quando isto acontece, todos nos habituámos a ver os mercados a cair. E a coisa só acalma quando se injectam mais uns milhões na banca. Era engraçado somar os biliões que a Banca mundial já ganhou com estes crashes sucessivos. Dividindo esses biliões por cada um de nós, se calhar ficávamos todos bem. Assim, temos de ir buscar aos bancos o nosso dinheiro com juros, descontando os fabulosos prémios a que os gestores da banca se acham com direito. Por isso, continua tudo na mesma.
E nos serões televisivos, lá temos todas as noites os mesmos marretas do costume, todos ex-ministros das Finanças, a dizerem que é preciso produzir mais e diminuir as despesas. Devia ser obrigatório durante estes programas passar em rodapé as várias reformas e ordenados que cada um destes cavalheiros acumula, começando pelo actual Presidente da República.
Não deixa de ser triste e perturbador, que a madrugada libertadora do 25 de Abril tenha servido também para, disfarçadamente, se apoderarem dos conselhos de administração dos bancos e das empresas públicas toda uma casta de cavalheiros que se auto-consideram gestores excepcionais e que têm direito a ordenados e regalias dos mais elevados de todo o mundo. E pasme-se, são eles que fixam os seus próprios vencimentos e benesses, “ratificadas” pelos accionistas. E alguns, como o dr. Mexia, até acham que merecem ganhar de prémio anual mais de três milhões de euros por gerirem bem empresas monopolistas, sem concorrência no mercado.
Toda esta casta de economistas e gestores, causadores da crise, continua nos mesmos lugares, apoiando a austeridade para os que já ganham pouco, enquanto eles vão aumentando os seus vencimentos e regalias. Por isso Portugal é o país da Europa onde as assimetrias salariais são maiores e têm aumentado cada vez mais.

<b>2 – </b>Felizmente para o país, Pedro Passos Coelho venceu o PSD. O país e o partido livraram-se de uma mulher medíocre e de ódios, que até na hora da retirada manteve o baixo nível, chamando mentiroso ao primeiro-ministro sem ter meio de prova para o fazer. Aliás, secundada pelo “prof. Martelo”, que vai cansando muita gente com as suas patetices.
O país passou a ter uma oposição séria, que já deu a maioria nas sondagens a Pedro Passos Coelho, coisa que a d.ª Manuela nunca teve com a sua maledicência. José Sócrates tem agora um adversário que luta no plano ético e político, e que finalmente vai pôr o PS à prova. Entre outras coisas, o PS terá de mostrar ao eleitorado que apesar da crise e dos sacrifícios impostos aos portugueses, a sua opção é pelo eleitorado que lhe tem dado sucessivas vitórias eleitorais, e que é constituído pela maioria dos trabalhadores e não pela casta dos gestores e administradores, cujos vencimentos e regalias o Governo tem de rever, bem como substituir aqueles que mais do que servirem causas, se servem a si próprios numa gula sem fim.

<b>3 – </b>A selecção do Pepe, do Deco e do Liedson lá anda pela Covilhã, a dar uns chutos na bola. As televisões por perto não perdem pitada dos treinos, para poderem noticiar em primeira-mão que o Cristiano Ronaldo sofreu um toque no joelho e assustou toda a comitiva, mas felizmente não passou de um susto. O “seu” Deco, esse já anunciou que depois de jogar por Portugal na África do Sul vai regressar definitivamente ao seu país, o Brasil. No comments.

<b>4 – </b>É o país que temos no seu pior. E surpreendentemente, o Benfica lá ganhou o campeonato da bola. Depois de 90 milhões de euros a comprar jogadores estrangeiros durante três anos, LFV ergueu o seu grande clube ainda mais alto. E à cautela, já emitiu mais 40 milhões de euros em obrigações, que a rapaziada esgotou num abrir e fechar de olhos, para comprar mais jogadores. Não basta ser o maior clube do mundo em sócios. É preciso ser o maior a esbanjar dinheiro e o melhor a assegurar os campeonatos fora das quatro linhas. LFV aprendeu, e bem, com Pinto da Costa. Levou mais de metade do campeonato a jogar contra dez, arrumou com o Hulk e outros quase o campeonato todo. E desta vez nem foi preciso ir fazer nenhum jogo ao Algarve. Claro que o SLB tinha a melhor equipa do campeonato (90 milhões mais ninguém teve), como aliás me lembrou um indignado adepto encarnado através de um mail anónimo, onde sublinhava as grandes vitórias encarnadas. Tal e qual o FCP, que também teve grandes equipas durante muitos anos e até ganhou duas taças europeias. Resta saber que dinheiros são estes, donde vêm, e quem fica com os lucros fabulosos. Fala-se dos milhões dos gestores e dalguns políticos, mas ninguém fala dos milhões do futebol.. Haja rapaziada para encher estádios, dar umas voltas de carro a apitar e agitar bandeiras, o país a vibrar, que o resto está tudo bem.

<b>5 – </b>No último domingo, ao regressar a Lisboa de Cascais, vi na auto-estrada junto ao Estádio Nacional uma camioneta do Porto e vários carros com vidros partidos, apedrejados por selvagens das claques benfiquistas. Algumas semanas atrás o filme tinha sido ao contrário, no Porto. O autocarro do Benfica com vidros partidos, apedrejado por selvagens das claques portistas.
É isto o futebol português actual. Dominado por dois grandes clubes, com dois grandessíssimos presidentes, mafiosos do futebol, incendiários de instintos primários e ganhadores de títulos a qualquer preço. Já alguém os ouviu falar contra a violência das próprias claques? Também eles, como elite do futebol, estão acima da crise, esbanjando milhões em jogadores estrangeiros, alegremente pagos pelos associados, que só vivem em crise durante a semana. Ao fim de semana, é o farnel e o cachecol, e vamos ver os génios que ninguém pára. Na segunda-feira, “A Bola” e o “Record” esgotam mais depressa que os outros jornais. Naturalmente.

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