Concertos e desconsertos eleitorais

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

João Espinho

<b>1. </b> Este ano de 2009, rico em actos eleitorais, vai trazer-nos muita música, muitos concertos e, claro, muitos desconsertos.
Haverá harmonias para todos os gostos e nenhum partido se furtará a ter artistas de renome a animar as suas festas e comícios. Os programas partidários têm que ser vendidos e, quem os comprar, tem direito a um brinde. É assim que jornais, revistas e magazines estão a fazer: oferecem-nos faqueiros, dvd’s, livros, cd’s, malas para senhoras, bijutaria, etc.… Atraem-se, desta forma, mais compradores, mas duvido que se criem mais leitores. Às vezes tenho a sensação de trazer para casa coisas que seria incapaz de comprar, mesmo que a baixo preço. São inutilidades que vêm coladas ao produto que adquiri e que, muitas vezes, ficam no posto de venda. É uma espécie de benfeitoria: desfaço-me daquilo que não quero e alguém beneficiará porque, felizmente para todos, os gostos não têm que ser coincidentes.
Haverá um dia em que, ao comprar uns copos de cristal para oferecer à vizinha, que decidiu tomar o caminho do casamento, trarei comigo a assinatura anual de uma publicação qualquer, que nunca li, mas que terei todo o gosto em que o novo casal a receba gratuitamente em casa. Para além de dar um certo ar culto – oferecer assinaturas de revistas/jornais – não ficarei com o ónus de ser um, mais um, poluidor.
Nas campanhas eleitorais as coisas não funcionam de maneira diferente. Não há evento de campanha que não arraste consigo um artista, para além daqueles que têm o dever de ali estar para vender o seu produto.
O candidato à Junta de Freguesia decide que, antes de si, estarão em palco as senhoras que apoiam o Centro Social da aldeia e que, juntas, criaram uma coreografia muito animadora. As ruas da aldeia convergem para a sessão. É uma noite diferente, mais animada, pois por ali, durante muito tempo, as sessões de fado são um aborrecimento e os teatros só servem para adormecer ainda mais o sono da monotonia. Na plateia – Plateia? Não! Aquilo é uma sessão da campanha, por isso são os fregueses, os cidadãos, os eleitores, os queridos munícipes – há uma voz masculina que diz que o telhado da sua casa está, ainda, passados quase quatro anos, a cair. É um desconsertado no meio do concerto. Não é aquela a ocasião para confrontar promessas não cumpridas. A noite é para ver as senhoras do Centro Social e aplaudi-las. Aplausos que se prolongam para o candidato. Que, naquela aldeia, vai ser reeleito. Foi ele que trouxe o Centro Social para a terrinha e, obra maior, impulsionou as senhoras a fazer uma coreografia. O homem merece, as senhoras também, o telhado que espere!
Na vila vizinha, à mesma hora, passa um candidato a deputado europeu. Um ilustre desconhecido, acompanhado de alguém que lhe disse que era ali, na vila, que se comiam os melhores torresmos da região. Ele cumprimenta, à esquerda e à direita, mas é o chefe do partido que faz as honras da casa. Apresenta este e o outro, tudo senhores da vila. À sua espera tem um grupo coral – o único na vila – que lhe canta umas modas de boas vindas. A comitiva, com uma dezena de ilustres, carros lustrados e muitos telemóveis, aplaude os cantores que, bem representados, oferecem um galhardete ao candidato. O povo, a vila, reúne-se e pede mais uma moda. Era para isso que ali estavam todos. Todos? Não! O chefe do partido convida o candidato a eurocrata a provar as febras, de porco preto, pois claro, a experimentar aquelas azeitonas e, obviamente, a degustar os torresmos. Naquela azáfama eleitoral, um desconsertado cidadão vira-se para o ilustre e pergunta se, afinal, aquela vila já estava no mapa, pois há uns anos ouvira o senhor, o ilustre, prometer que a vila iria ser um pólo europeu disto e mais aquilo. O desconsertado munícipe, e querido cidadão europeu, não obteve resposta pois o chefe do partido encaminhou o candidato para mais uns torresmos, para mais umas modas. Afinal, não era para isso que ali estavam os homens da vila?
Entretanto, na cidade, grande, ambicionada capital, os trabalhos eram de preparar uma festa maior. Onde teriam que estar presentes os homens da aldeia, as senhoras da coreografia, os cantadores, os senhores do partido, as febras, as azeitonas e os torresmos. Contados, vila a vila, aldeia a aldeia, rua a rua, ao organizador da festa – o candidato – pareceu-lhe que eram poucos. Faltava-lhe ali a juventude, sim, aquela que dá alegria às festas e que nunca se sabe se vai votar no dia em que o deve fazer. Olha para trás e vê que, nos últimos anos, só tinha acarinhado a rapaziada já envelhecida. Havia esquecido os jovens, esses desconsertados munícipes, que não seguem as normas do partido e só metem a cruz onde lhes apetece. Música, coisas radicais, festas, cerveja, dêem-lhes tudo, pois são eles o futuro desta cidade, terá imaginado o líder – o candidato – no corrupio eleitoral. A dúvida, porém, subsistia: serão estes jovens fiéis à oferta? Não, terá sido a resposta do chefe do partido. O voto dos senhores e senhoras, das febras e torresmos, cantadores e amigos das Juntas, teria que ser garantido. Faça-se a Festa da Cidade logo de seguida, gritou alguém bem concertado em concertos eleitorais, e casem a juventude com a cidade. Um desconsertado jovem terá lamentado só ter um dia para recuperar, já que durante os últimos anos só conhecia a ressaca de nada lhe ter sido oferecido.

<b>Nota:</b> Esta edição do “Correio Alentejo” (CA) reflecte a maturidade de três anos de existência. Um projecto independente que, apesar dos diversos maus agoiros, ou talvez por isso mesmo, vingou na comunicação social da região. Um exemplo a ser seguido por outros que, por sobreviverem à custa do erário público, deveriam prosseguir a isenção e abandonar a sua evidente bajulação aos poderes instituídos na região. Parabéns a todos os que, desde o princípio, trabalham para que o “CA” seja aquilo que é hoje.

<p align=’right’><b><i>(crónica igualmente publicada em
<a href=´http://www.pracadarepublicaembeja.net´ target=´_blank´ class=´texto´>http://www.pracadarepublicaembeja.net</a> )</i></b></p>

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