Como explicar “isto” às Hello Kittys?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Margarida Janeiro

jornalista

Ante o meu pedido habitual a Anita trouxe o preparado com pedrinhas de gelo, privilégios de cliente habitué. O gesto levou-me a comentar com a minha amiga de longa data “se fosse na praia da ilha cravavam-me cinquenta cêntimos só pelo copo de água e se fosse em Odeceixe outros tantos só pelas pedras de gelo”.
Que sim que achava bem, disse fitando-me segura da sua afirmação. E eu espantada só não engoli em seco porque estiquei o braço e sorvi depressa um golo. Glup!
“Tens que ver que os comerciantes têm despesas com uma casa aberta. Se tu pedes um copo de água eles estão a perder dinheiro e se todos fizerem o mesmo são muitas garrafas que eles não vendem. Já viste que estamos aqui sentadas só a consumir um café? E quantas mesas estão ocupadas assim?”.
Hum…ponderei. Hesitei até. Fiz mesmo um esforço para me “colocar no lugar do outro”, mas nãm. Não surtiu efeito! Não consegui estabelecer qualquer empatia com esses grandes investidores, donos dos cafés de todo o mundo. Aliás, sempre me fez espécie quem por esse caminho envereda: o de comprar aqui para vender ali sem algo mais a acrescentar que não seja o puro lucro. Percentagens exorbitantes de lucro. Abrir lojas, abrir cafés para transacionar produtos sem lhe juntar qualquer criatividade, sem qualquer mais-valia. Onde já se viu estar preocupado com quem compra paletes de garrafas de água no Lidl, a sete cêntimos cada uma, e as vende a um euro? Onde já se viu comprar melancias e tomates e batatas por atacado a quem as semeia, rega, colhe, transporta, dando-lhes aos trinta cêntimos por quilo, para as apresentar numa qualquer grande superfície ao dobro ou ao triplo?
Apanhada de chofre por estes pensamentos e logo na mesma semana em que havíamos criado a cooperativa. Tínhamos ido comprar legumes e fruta aos produtores do Mercado Abastecedor, tínhamos levado tudo para a garagem, tínhamos pesado e separado e ido entregar aos associados a preço de custo e vem logo uma pessoa que tanto estimo, logo uma amiga mesmo amiga, defender neste simples diletantismo de cruzar a perna na esplanada, e com toda a carga de insensibilidade social, a lógica capitalista dominante deixando-me derreada.
Pensei em dizer que não ganhar dinheiro é diferente de estar a perder dinheiro e ainda que, argumento forte e simbólico, um copo de água não se nega a ninguém, mas lembrei-me de repente do António Lobo Antunes e do José Cardoso Pires que, um dia em conversa sobre assuntos importantes da vida onde estavam em sintonia verdadeira pela evidência das ideias trocadas, um exclamou para o outro “Pois pá! Mas como explicamos isto aos paizanos?”

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