Belmiro Isidro Caeiros

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António José Brito

director do correio alentejo

Depois da segunda grande Guerra Mundial, o país e a vila de Entradas enveredam por uma nova realidade. Os apertos provocados pela tragédia desaparecem e, mesmo com uma incontornável miséria, nota-se um novo alento, sobretudo a nível local, onde os 20 anos seguintes, de 1945 a 1965, são de notável desenvolvimento e modernização da localidade.
Este período é marcado pela afirmação da actividade da Casa do Povo mas, sobretudo, pela acção da Junta de Freguesia e de um homem que inevitavelmente está ligado a muito do que foi feito na vila nesta época. Esse homem é o professor Belmiro Isidro Caeiros.
Com formação católica e muito ligado à Igreja, Belmiro Caeiros nasceu em São Teotónio, no concelho de Odemira, e vem para Entradas como docente do ensino oficial. Na juventude frequentou o seminário e durante a vida nunca perdeu o hábito de ir à missa todos os domingos.
Em Entradas nunca esteve ligado à Sociedade Recreativa Entradense e fazia ali breves aparições apenas para ler o jornal, mostrando-se até algo antagónico a este tipo de movimento associativo. Na óptica de Fernando Caeiros, seu filho e antigo presidente da Câmara de Castro Verde, isto deve-se em parte ao facto de julgar que estas actividades têm “um carácter excessivamente pagão e quase sempre conotado com o republicanismo”. Embora em Entradas o quadro não seja esse, o professor de São Teotónio, que por razões essencialmente de formação é “muito adverso a coisas autónomas e de livre confraternização”, vê na Sociedade “um movimento não controlado”.
Homem inteligente, culto, bem formado, salazarista convicto que, segundo Fernando Sales de Brito Palma, “compreendia bem o que era o salazarismo e acreditava no regime corporativista”, torna-se muito influente em Entradas, por via da profissão, mas também devido à sua evidente dinâmica e capacidade empreendedora.
Para muitos entradenses, a sua figura está indelevelmente associada à de alguém com um papel importantíssimo, tanto na vertente autárquica como na de professor, área onde alguns alunos o classificam como “competente e dedicado”.
Na voz do povo, Belmiro Caeiros é “um homem muito metido em todas as coisas” e, no entender do relojoeiro António Espírito Santo, tem “muito jeito para apaparicar os governantes”. É indesmentível, por exemplo, a sua influência junto de Bento Caldas, que durante muitos anos exerceu em Beja as funções de delegado do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência (INTP).
Por causa deste perfil, o professor chega à presidência da Junta de Freguesia em Novembro de 1945 e aí se mantém até Junho de 1974, já depois da Revolução dos Cravos.
Pelo meio, lidera uma vasta obra que transfigura por completo a povoação e fica marcada pelo calcetamento de todas as ruas, electrificação da vila e construção dos jardins da avenida de Nossa Senhora da Esperança e do edifício da Casa do Povo.
Estas intervenções, de um modo geral, tiveram a particularidade de modernizar mas, ao mesmo tempo, dar resposta às sucessivas crises que se apoderam dos trabalhadores rurais. Em muitas ocasiões, o avanço de obras de calcetamento acontece por administração directa da própria Junta, visando dar resposta à falta de trabalho que afecta muitas famílias. Isto começa por suceder no início dos anos 40, com os calcetamentos das ruas de Santa Bárbara e do Paço, e do Largo [hoje rua] do Arrabalde e, é importante frisá-lo, porque reforça esta argumentação, estas obras chegam a parar por altura das ceifas, quando há trabalho alternativo, sendo retomadas depois de concluída esta tarefa nos campos. (…)
[Com o 25 de Abril de 1974] Desalojado do poder que exerceu com respeitável eficácia e desenvoltura, dando a Entradas um ritmo de modernização e progresso incontestáveis, Belmiro Isidro Caeiros compreende até certo ponto o desfecho do regime. “Para ele não foi a queda da ideologia, mas sim a corrupção que corroeu o regime. A ideologia mantinha-se intacta”, considera Fernando Sales de Brito Palma.
Belmiro Caeiros, com 59 anos, continuou a sua vida em Entradas. Respeitado, escutado e até venerado! (…) Morreu aos 67 anos, no dia 5 de Junho de 1982. A vila homenageia a sua obra e imenso trabalho em prol do bem comum dando o seu nome à rua onde um dia o seu sogro, José de Sousa, teve uma frequentada taberna.
Hoje é recordado pelas qualidades de professor, apesar dos métodos da época, e pela invulgaridade da sua intervenção enquanto autarca, com um currículo vasto e incontornável em qualquer levantamento histórico que se faça sobre a freguesia.

Extracto adaptado do livro <b><i>Entradas – A Sociedade e a Vila</i></b> (2005)

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