As Sentinelas da paz

Quinta-feira, 25 Setembro, 2014

D. António Vitalino Dantas

Bispo de Beja

Semanas atrás, o Papa Francisco visitou duas regiões do planeta que desde há muitos anos vivem em permanente tensão, onde, de vez em quando, rebenta um conflito armado e há corte de relações. Refiro-me ao Médio Oriente, sobretudo Israel e Palestina, e Extremo Oriente, a Coreia. Essas visitas, repletas de belos discursos e gestos simbólicos parecem ter sido inúteis. O Papa rotulou a situação mundial de início de uma guerra mundial aos pedaços. Para quem viveu os horrores da segunda guerra mundial e sofreu as suas terríveis consequências, deveria tentar tudo para que isso não se tornasse verdade.
Numa missa recente as leituras bíblicas lembraram a missão dos cristãos e da Igreja a este respeito. O profeta Ezequiel dizia que devemos ser sentinelas que advertem os pecadores e transgressores da ordem, pois se não o fizermos somos co-responsáveis pelo mal que acontece e chamados a sofrer também o castigo.
Ao meditar este trecho bíblico, adveio-me o pensamento da inutilidade de tantos esforços e tentativas da Igreja e das organizações internacionais para estabelecer a paz entre os povos e dentro de alguns países profundamente divididos e envolvidos em guerras civis. Será que vamos às causas dos conflitos? Serão inúteis todos os esforços?
A Fundação Calouste Gulbenkian concedeu o prémio deste ano de 2014 a uma organização católica conhecida por Comunidade Santo Egídio, movimento nascido há 50 anos, durante o Concílio Vaticano II, no bairro romano de Trastevere e que hoje está espalhado em mais de 70 países, com cerca de 60 mil leigos empenhados em promover o diálogo ecuménico e em apoiar pessoas sem abrigo, idosos, crianças, presidiários, vítimas de guerras e imigrantes, assim como em mediar conflitos através do diálogo, da oração e do testemunho de vida comunitário. É bem conhecido o seu papel na reconciliação dos movimentos armados na guerra civil em Moçambique. Divulgando os valores e princípios de um novo humanismo, esta comunidade acredita que a paz é possível. Aqui está uma maneira de ser sentinela da paz e da reconciliação entre os povos.
Por isso não desiste de acreditar e intervir em situações de conflito. Assim também o Papa Francisco. E nós, como vivemos e agimos face a tantas situações de conflito, a começar pelas nossas famílias e comunidades cristãs? As leituras deste domingo deram-nos matéria para alimentar as nossas convicções e actividades ao longo do ano e da vida. Na “Carta aos Romanos”, São Paulo diz-nos que não devemos ficar a dever nada a ninguém, a não ser o amor de uns para com os outros, no qual consiste o pleno cumprimento dos mandamentos.
E nós, nas empresas, na sociedade, no Estado devemos tantos justos salários e remunerações, sinal de que o amor ao próximo e a justiça andam muito espezinhados.
Mesmo dentro das comunidades cristãs, o Evangelho de São Mateus aponta-nos como devemos resolver os nossos conflitos, apenas desistindo quando o prevaricador não quer dar ouvidos a ninguém. Muitas vezes tornamos impossível o diálogo, começando por não ouvir o próprio nem ninguém. Assim é impossível o ministério da reconciliação.

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