As desigualdades são para continuar

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

A recente tragédia do Haiti veio mais uma vez demonstrar que as desigualdades existem, são para continuar e, de certa maneira, interessam aos que ocupam os cargos onde essas desigualdades podiam ser combatidas e atenuadas. A solidariedade de todo o mundo é bonita de se ver. E o voluntarismo de tanta gente que parte sem olhar para trás, para terrenos difíceis, permite atenuar o sofrimento de muitos milhares de pessoas e salvar muitas vidas.
Mas a grande verdade é que o Haiti é um país pobre, explorado para férias de luxo, de praias paradisíacas, mas de que as populações nunca beneficiaram. Por isso, as construções locais são frágeis, a desorganização social enorme e a instabilidade política permanente.
Nestas condições, um tremor de terra causa aqui muito maior destruição e morte do que noutros lados. E também sabemos que existem no mundo 40 países mais pobres que o Haiti, onde podem acontecer mais catástrofes, onde vai morrer muita gente e onde vão ser geradas mais ondas de solidariedade. Vai continuar tudo na mesma, porque as desigualdades são para continuar.
Dizem os chamados “economistas” que o mundo está a recuperar da crise, lá do alto dos seus elevados e múltiplos salários. Mas o que o comum dos mortais vê é o desemprego a aumentar, a gasolina a aumentar todas as semanas, as multinacionais a deslocalizar as empresas para países de mão-de-obra mais barata, os bancos com lucros fabulosos e impostos obscenos de tão baixos e, acima de tudo, os mesmos gestores que provocaram a crise nos mesmos lugares. Ninguém duvide que as desigualdades são para continuar.
Em Portugal, depois das eleições, nem tudo vai bem. As primeiras semanas de funcionamento da actual Assembleia da República caracterizaram-se pela retaliação de toda a oposição em relação à anterior maioria, impondo agora a sua actual maioria, no sentido de diminuir as receitas do Governo e aumentar as despesas. Mais a patética atitude de mau perder de Manuela Ferreira Leite, que prestava um serviço relevante ao país e ao PSD abandonando já a vida política. Claro que isto não podia continuar, até porque todos nós temos de estar atentos ao que se passa no mundo. As recentes vitórias da direita no Chile e na Ucrânia, com o regresso ao poder da família política de Pinochet, significa que os eleitores se fartam da instabilidade e dos governos que, de facto, não resolvem os seus problemas, se perdem em querelas institucionais e normalmente se deixam enredar nas teias da corrupção.
José Sócrates tem de estar atento a isto e perceber que os eleitores socialistas não votaram numa lista europeia onde estavam nomes como Correia de Campos e Ana Gomes (a senhora dos aviões da CIA), que de facto nada têm a ver com o PS. Como agora não percebemos que se mantenham à frente de empresas públicas gestores como o da GALP, que continuam a gozar com os portugueses, aumentando de imediato os combustíveis quando o petróleo sobe e não lhes mexendo quando o petróleo desce. O senhor goza connosco, em nome do aumento dos lucros da empresa, prejudicando quem necessita de carro para trabalhar, perante a indiferença dos muitos milhares de gestores e titulares de cargos políticos, que se habituaram a andar nos carros oficiais por nossa conta. E nós, que indirectamente elegemos esta gente, também vamos perdendo a paciência.
Muito mais quando vemos exemplos como o dr. Silva Lopes, sempre pressuroso a dizer que se devem moderar os aumentos dos funcionários públicos, e que agora foi nomeado para mais um cargo na administração das energias renováveis, com um principesco ordenado a juntar às várias reformas que já tinha. Há outro país para além do mundo real do desemprego e dos trabalhadores a recibo verde, onde pontificam estes senhores de vida fácil, com múltiplos empregos e reformas milionárias, com empregos garantidos para os seus filhos e reportagens garantidas nas revistas cor-de-rosa, enquanto a maioria dos nossos jovens, completados os seus cursos, espreitam em vão o mercado de trabalho, enviando os seus currículos entre milhares, iniciando o desespero do desemprego.
E a propósito dos jovens que a nossa escola manda para o desemprego, parece que o país respirou de alívio com a “paz” alcançada nas escolas. Também aqui as desigualdades são para continuar. De facto, ouvi num programa radiofónico que os nossos professores são todos classificados de “Bom” para cima. Assim, todos têm acesso ao cume da carreira e lá temos a primeira classe profissional onde todos chegam a general. Sendo os nossos professores os mais bem pagos de toda a Europa, não me consta que os nossos alunos sejam os mais bem preparados da Europa. O inefável sr. Nogueira tem motivos para sorrir. O povo português nem tanto, porque todos gostaríamos de ver uma escola a melhorar e depois premiar os professores, e não o contrário, como estamos a ver. Vamos a ver se o país não vai ter saudades da anterior ministra, do mesmo modo que já tem do anterior ministro da economia. Entretanto, a factura vai sendo paga pelos do costume.
Para animar o país, Santana Lopes foi condecorado pelo Presidente Cavaco Silva, que lá arranjou um tempinho, para além da sua permanente preocupação com a grave situação económica do país. Na mesma onda de seriedade e justiça terão ficado esquecidos a Júlia Pinheiro, o Manuel Goucha e o sr. Luís Filipe Vieira. Mas esperemos que a atribuição de condecorações volte a ter alguma dignidade e possa sair da rotina dos amigos e do tem que ser.
E para manter as desigualdades, neste país pobre e endividado, os “grandes do futebol”, apesar das suas dívidas ao fisco e à Segurança Social, lá gastaram mais uns milhões em mercenários da bola no mercado de Janeiro. Porto, Sporting e Benfica gozam com as autoridades deste país. Com o sr. LFV e sua “verdade desportiva” a ponderar. O presidente do “SporsBoa” e Benfica, na sua iliteracia comovente, disse por estes dias que o Benfica é Portugal. E disse há algum tempo que mais importante do que comprar jogadores (aspecto que não descura), é colocar as pessoas certas (leia-se do Benfica) nos lugares certos. Dito e feito. Este homem valoroso e de princípios, já assegurou o título deste ano para o “SporsBoa” e Benfica. Quem se atrever a não perder na Luz, tem de enfrentar o túnel da Luz. Quem criar problemas no campo (a tal verdade desportiva) ao SprosBoa e Benfica, arrisca-se a acabar o jogo com nove jogadores. O Porto tem dois jogadores sem jogar há um mês a aguardar a conclusão dum processo disciplinar, o Braga tem agora um jogador suspenso. E o que mais se verá. Entretanto, alguns jogadores encarnados vão agredindo alguns adversários na mais completa impunidade e sem comentários de “A Bola”, que rejubila com as “goleadas”, “os génios”, “o melhor ataque do mundo”, o tal “ninguém segura o Benfica”, nem mesmo o companheiro Pinto da Costa a quem já não basta receber árbitros na véspera dos jogos para “tratar” de problemas familiares e oferecer o campeonato deste ano ao sr. Pedroto, porque no mundo da corrupção do futebol, os apitos mudam mesmo de cor.
Espantoso é o modo como parece que tudo isto não é verdade e o futebol voltou a ser a distracção do povo como no tempo de Salazar. Sem ninguém se preocupar donde vêm os milhões para comprar jogadores, por clubes falidos. Comprando e povoando as principais equipas com jogadores estrangeiros, que reflectem a fraca prestação da Selecção Nacional, onde também já militam vários brasileiros, mas portugueses de bola. E parte do país exulta porque o Benfica enche estádios, esquecendo que a maioria dos outros estão lamentavelmente vazios. E a rádio e a televisão multiplicam os programas com comentadores desportivos, cada qual mais pateta que os outros, a discutir os lances e a lançar poeira para todos, quando os dados estão viciados à partida. Com todo o sucesso. E embora já não haja o lápis azul neste país, eu próprio tenho a noção que muitos, se pudessem, o usavam nestas linhas, inconvenientes para a frustração clubística, dos que ainda recorrem ao mundo nebuloso da bola e dependem dos golos que se marcam ou não aos domingos.
Uma última referência ao programado jogo a favor da pobreza, organizado por estes senhores que gastam milhões a comprar jogadores e em que metade da receita vai para a casa do Benfica, conhecidíssima pela sua vasta acção social. Uma vergonha.
Por fim, a candidatura presidencial de Manuel Alegre. José Sócrates, na minha opinião um dos nossos melhores políticos da geração do pós-25 de Abril, e sem dúvida o melhor primeiro-ministro que tivemos, tem pela frente o desafio de garantir a melhor escolha, para que possa haver uma alternativa ganhadora para a Presidência da República.
Nas últimas eleições, apoiei a candidatura de Mário Soares que me pareceu o melhor candidato para vencer Cavaco Silva, pelo papel relevante que teve e tem na política portuguesa. O eleitorado votou como segundo candidato Manuel Alegre, que já se disponibilizou para novo combate. Espero que Manuel Alegre não seja o candidato do sr. Louçã. Não reunindo o consenso de todo o PS, poderá vir a ser o candidato do partido e dum grande sector da sociedade portuguesa, que não se revê neste país de tantas desigualdades, que ao contrário das nossas expectativas, se agravaram depois do 25 de Abril, em democracia. Situação social que tem levado ao retorno ao poder, como no Chile e na Ucrânia, dos antigos tiranos. Se o programa de Manuel Alegre for claro no combate à corrupção, no combate aos abusos e à desigualdade, e mais na acção do que no verbo, vai certamente ter um apoio mais alargado do que na anterior candidatura. E será potencialmente ganhador.

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