Apodrecendo uvas

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Jorge Serafim

contador de histórias

Parece que para alguns iluminados políticos cá da terra, o embelezamento de alguns espaços públicos através da instalação de peças de arte contemporânea não é de maneira nenhuma desejável. Nomeadamente no que toca ao centro histórico. Querem modernices arrotundem os arrabaldes da cidade! Intra-muralhas, apenas permissão para Marianitas, Rainhas, Reis, galos de Barcelos, açordas de alho, ensopados de borrego, migas de entrecosto e secretos de porco preto. Os artistas que se governem com o que há, que assim é que é bonito, todos iguais, todos banais.
Quando a proposta da oposição PSD na câmara de Beja para eliminar uma expressão artística (refiro-me à escultura de Noémia Cruz elaborada para o largo de São João) é orgulhosamente porta-estandarte de um partido, dá que pensar no que a cidade teve e infelizmente já não tem. Vejamos então o que perdemos: a) organizadas pelo Conservatório Regional de Beja, as Jornadas Culturais de Outono e as de Inverno; b) pela saudosa Associação para a Defesa do Património Cultural da Região de Beja, toda a sua actividade regular, colóquios, exposições, edições, a Mostra anual de Doçaria Tradicional, apenas se salvando e não com a anterior projecção, os Encontros de Grupos Corais; c) pela a autarquia bejense: a Anibeja, a projecção nacional da Galeria dos Escudeiros (saudades do seu director, Jorge Castanho), a actividade regular e de qualidade que a Casa da Cultura tinha há quatro anos atrás (que saudades das terças à noite); d) Coro de Câmara de Beja: a programação rica e variada da Semana de Música para o Natal que por falta de verbas teve que se reduzir; e) mais recentemente pela Região de Turismo Planície Dourada, o recém-desnascido Festival do Amor. Não deixa de ser estranho que em tantos anos de vida esta instituição ainda não seja o motor de um evento sedeado em Beja relacionado com a sua vocação, a promoção turística.
E mais tantas outras que se poderiam por estas linhas mencionar… É certo que outras se inventaram e estão acontecendo, mas fica-se com o receio de que as coisas nascem, para não crescer. O que infelizmente se mantém, é a discussão ridícula, mesquinha, fechada, provinciana, invejosa, que se faz em nome da cidade… Colhem-se as parras, deixam-se apodrecer as uvas…
“Um homem só escreve com as palavras que conhece”, diz sabiamente o escritor. O problema de fundo é que por estes lados, continuamos a teimar em conhecer poucas.

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