Ainda (e sempre) o Museu Regional de Beja

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

José Filipe Murteira

professor do Ensino Secundário

“Se todos os municípios pagassem atempadamente os seus contributos, a situação do Museu Regional não seria tão delicada”. Estas palavras bem poderiam ter sido proferidas por António Sebastião, o actual presidente da Assembleia Distrital de Beja, entidade que gere esse equipamento cultural, que passa pelas dificuldades que todos conhecem, e que impedem, nomeadamente, o pagamento atempado dos salários aos seus trabalhadores.
Trata-se, no entanto, de uma frase de Luís Pita Ameixa, que exercia essas funções quando foi publicado um artigo de Carlos Dias, no jornal “Público”, no dia 19 de Agosto de 2002, cujo tema era precisamente a delicada situação financeira que, também nessa altura, a assembleia atravessava. O que levava Carreira Marques, citado igualmente nesse artigo, a afirmar que uma parte do espólio do museu permanecia “encaixotado” e sem o “tratamento adequado”.
Voltando à actualidade, citemos agora Manuel Narra que, ouvido pela Rádio Pax, após a última assembleia, que aprovou o orçamento para 2012. Sem papas na língua, classifica de uma “insensibilidade atroz” a ausência dos seus colegas presidentes de câmara nessa reunião, fazendo-se representar por elementos dos respectivos executivos.
Esta situação faz-nos regressar, de novo, à época em que Pita Ameixa presidiu à Assembleia Distrital. Face à instabilidade e às incertezas por que passava, foi marcada uma reunião extraordinária dessa entidade, aberta a todos os que se interessavam pelo seu futuro e, em particular, pelo Museu Regional.
Para além da participação de várias pessoas a título individual, ou em representação de associações, registou-se a (louvável) presença de representantes do Poder Central, como os directores regionais da Cultura e do Património, bem como do subdirector da Direcção Geral dos Monumentos e Edifícios Nacionais, na altura responsável pela realização das obras de manutenção e conservação do Convento da Conceição.
Pois bem, tal como na última reunião da assembleia, foi lamentável a ausência da quase totalidade dos presidentes de câmara do distrito, traduzindo alheamento perante a importância do assunto. Apenas três estavam presentes (Pita Ameixa, Carreira Marques e António Mendonça). Dos outros onze municípios, cerca de metade fizeram-se representar por vereadores, enquanto que os restantes primaram, pura e simplesmente, pela ausência.
Para além dos salários em atraso, verifica-se, hoje em dia, uma quase total paralisia das actividades do museu (em particular do seu sector educativo, que vinha fazendo um trabalho meritório), para além da degradação do interior e do exterior do edifício. Em contradição, afinal, com a recentíssima adesão, ainda não há um ano, à Rede Portuguesa de Museus, como reconhecimento da sua actividade.
Foi esta grave situação do Museu Regional que levou dois dos participantes do colóquio “Beja – Imagens da Cidade Antiga”, que teve lugar na semana passada, a apelarem publicamente à mobilização cívica dos bejenses.
Santiago Macias, no seu blogue – avenidasaluquia34.blogspot.com – coloca, entre outras, a seguinte questão: “Vai Beja deixar que se encerre o seu museu?”
Cláudio Torres, em declarações à Rádio Voz de Planície, vai mais longe, ao afirmar que, sendo “um dos mais importantes do País, em termos arquitectónicos e pelo espólio que apresenta (…) os bejenses têm de decidir se querem continuar, ou não, com as portas abertas de um dos museus mais importantes do país.”
São, sem dúvida, questões importantes, colocadas por duas pessoas cujo currículo e intervenção na área são sobejamente conhecidos, e que não devem deixar os cidadãos do concelho e da região indiferentes.
Pessoalmente, sempre achei que a solução deve ser encontrada na região, ao contrário de quem defendia a “entrega” do museu ao IPM – Instituto Português dos Museus. Para além de, ultimamente, se colocar em cima da mesa a solução contrária (entregar museus nacionais às autarquias), essa hipótese demonstrava a incapacidade (fossem quais fossem as razões) de gerirmos o que é nosso.
Ao mesmo tempo, deveríamos olhar para o que se passou mesmo ao nosso lado, aquando das autonomias regionais. O Estado espanhol transferiu para as regiões museus, teatros, bibliotecas, criando uma importante rede de equipamentos culturais regionais, que podemos conhecer na Andaluzia ou na Extremadura. É claro que, sendo a desejável, não será, a curto prazo, a solução, dado que, mais uma vez, a regionalização foi “engavetada”.
Resta-nos, pois, a todos os que desejam preservar nas melhores condições o convento de Mariana Alcoforado (e a Igreja de Santo Amaro), com os legados únicos que albergam (pré-históricos, romanos, visigóticos, muçulmanos, ou dos séculos XV e XVI, entre outros), participar civicamente e lutar pelo nosso museu, de modo a recuperar a dignidade e a importância perdidas.
Porque Beja, a região e o país merecem.

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