A realidade

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

Pode o silêncio de uma mulher solitária, na doença que a arrasta, rasgar a parede informe dos tempos modernos, bater à porta da indiferença e dizer bom dia? E se essas palavras forem mais do que sons, estejam transformadas em letras e, em forma de livro, nos entrar pela casa dentro mostrando que se sofre na dor e pela dor sem que quase todos nos demos conta… E às vezes essa dor é-nos tão próxima e inexistente que não nos damos conta dela a não ser quando esse outro ser aparece de cabelo rapado, ou com um pequeno saco pendurado, ou se encontra meses a fio prostrado numa cama, ou se instala um silêncio à volta dos seus lábios que percebemos que nos falta… E às vezes essa dor é de um vizinho, de um familiar, de um amigo… Fernanda Romba pôs na rua os seus apontamentos, a sua revolta na doença e contra a doença, quando estava numa espécie de corredor da morte, que a arrastou tempos sem fim, desde que soube do seu cancro da mama até quando percebeu que a sua doença estava “sanada”… Num misto de horror e dor e não querer morrer e saber que muito mais tinha que fazer e lutar pela vida e sujeitar-se aos odores da morte e desejar a vida e “matar a morte” com o nascimento de um neto… Este livro é isso tudo, adicionando um quê de ironia e de jogo com a doença, de uma forma extraordinariamente simples, escorrida, num falar tão escorreito que sentimos uma espécie de diálogo a invadir-nos a boca dando voz às palavras que vamos soletrando, algumas dolorosamente, outras menos, outras com a gargalhada no tremer dos lábios… O livro chama-se <b><i>O meu caranguejo e eu… </i></b>e a segunda edição é marcada com a sua apresentação em Lisboa, na Casa do Alentejo, em colaboração com a Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPC), numa efeméride que será assinalada com a entrega à LPC dos lucros da venda da primeira edição. A editora “100 Luz”, do João Branco, agarrou desde o primeiro minuto este grito de solidariedade e pôs o livro na rua sem reservas. Mostrando que nem todos têm como único fito na vida o lucro frio e a indiferença com o que passa à sua volta. Mostrando que também a geração “rasca” tem muito a ensinar aos bem comportados, aos eternamente coerentes, aos sabedores das verdades eternas… Morre-se cada vez menos de cancro, mas morre-se cada vez mais da doença. Pelas correrias insanas das tarefas diárias, pelos hábitos alimentares, pelas mudanças de ritmos de vida, pela animalidade e sofreguidão com que olhamos o dia de amanhã… Mas de quando em vez há alguém que nos acorda para realidades e verdades que assustam de tão simples.

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