A liberdade sabe a caramelo

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Aprendeu a gostar de ser livre na idade em que aprendeu a gostar de caramelos. Ainda bem pequeno. E nem à pancada lhe conseguiram tirar aquele sabor da boca. Podiam tirar-lhe os caramelos, fechá-los numa gaveta, comê-los todos. Mas à sua liberdade é que já não podiam fazer nada. A liberdade é uma paixão eterna. A liberdade não se agarra só aos dentes como os caramelos. A liberdade agarra-se a tudo em nós. Entranha-se. Encharca-nos de inquietação e sonhos. Mete-se no sangue, nos pulmões, no mais ínfimo das células, voa no oxigénio, faz ninho no coração e procria. Um a um, pequenos actos de liberdade e respeito saem-nos do peito e da boca, dia após dia, no relacionamento com a vida e com os outros. Sem nada impor, arredar ou ultrapassar. Opinando, escolhendo as palavras melhores que os dicionários têm, voando sobre a lama, evitando as armadilhas, contornando os obstáculos, não dizendo cobras nem lagartos nem destilando veneno. Sem preconceitos, sem tácticas. Uma vez desembrulhada e saboreada, a liberdade aloja-se no cérebro e muda-nos. Põe-nos de pé. Mesmo que sejamos franzinos, desengraçados, demasiado comuns, a liberdade dá-nos as palavras certas para procuramos o nosso caminho. Ser livre é ter uma bússola nos olhos, mantimentos para a viagem toda, é ver, ouvir e ler, é ter inquietação, é dobrar horizontes, é não ter medo.
Que teimoso é o moço, queixavam-se a mãe, a avó e os tios. Tem a mania que é esperto, diziam os maiores, ao mesmo tempo que lhe davam umas chapadas por causa de mais um não quando era suposto dizer sim. É demasiado distraído, comentava o professor sempre que ele não respeitava o tema da redacção. Vais dar muitos tombos na vida, exclamavam os amigos sempre que ele não aceitava o estado parado e confortável das coisas.
Sempre detestou gaiolas de pássaros, aquários, trelas de cães, jardins zoológicos.
Aprendeu a ouvir os outros, aprendeu a discordar dos outros, a respeitar a diferença dos outros, a aceitar que os outros podem não gostar dele, podem até detestá-lo, odiá-lo, mas que isso é um direito que lhes assiste e por isso não lhes quer mal. Compreendeu que o mundo é feito de dialéctica, de oposição, de contraste. Por ser um homem livre, percebeu que deve ser magnânime em vez de mesquinho, dialogante em vez de vingativo, sincero em vez de hipócrita. Porque é livre, aceita que o interpretem, o leiam, o entendam, o avaliem de forma acintosa e velhaca. E aceita-o porque sabe que a liberdade e a dignidade são provas de resistência, coisa de anos a fio, um tempo contínuo de respeito e serenidade. Não tem de responder a banalidades, frustrações, mau perder, preconceitos.
É claro que por ter emoções não fica imune, mas prefere guardar essas mágoas para memória futura.

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