A inevitabilidade da morte

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Maria Fernanda Romba

Não existe nada escrito que diga que o natural é morrermos velhos. Mas, por uma questão de estatística, vivemos a vida aceitando que essa é a lei natural e sempre que a regra se altera, lidamos mal com a morte. É como se desde que nascemos tivéssemos um percurso a seguir, que não pode ser interrompido. E quando uma doença grave ataca e ameaça encurtar o caminho, sofremos horrores, muitas vezes antecipando um cenário que pode não chegar a acontecer, pelo menos por aquele motivo e naquela altura. Tudo isto porque lidamos mal com esta coisa de se ter que morrer, como se tivéssemos nascido para ser eternos. E não somos.
A esperança média de vida aumentou muito nos últimos anos. Por um lado, graças aos avanços da medicina, por outro, em consequência da melhoria da qualidade de vida, com mais e melhores habitações, melhor alimentação, melhor educação, maior e melhor acesso aos cuidados de saúde e uma aposta clara na prevenção, com mais e melhores meios de diagnóstico.
O facto de vivermos mais tempo, com mais qualidade de vida, leva-nos a interiorizar, cada vez mais, a ideia de que, se não somos eternos, para lá caminhamos. O exemplo mais emblemático é o do realizador Manuel de Oliveira, que continua a fazer filmes sem contar os anos, recusando-se, aos 102 anos, a calçar as pantufas.
Por via dos avanços científicos, os médicos, que todos os dias lidam com a morte, são muitas vezes assaltados pela culpa de não terem conseguido fazer tudo ou saber tudo para evitar esse desfecho. E, por vezes, a sensação de impotência é frustrante. E dolorosa. E torna-os a eles, como a nós, os que nada sabemos de medicina e da arte suprema de salvar vidas, pequeninos e indefesos, vulneráveis. E iguais, perante a inevitabilidade da morte. E, unidos na consternação, questionamos – como foi isto acontecer?
Deve ter sido isso o que sentiram os colegas do dr. Rui Sousa Santos que tudo fizeram na fatídica manhã de 18 de Dezembro para o devolver à vida, quando a morte, traiçoeira, lhe bateu à porta, aos 55 anos duma vida cheia. Cheia de projectos, plena de causas. Na Segurança Social, no Hospital, no seu PS. Mas cheia, sobretudo, de trabalho. Muito, para o qual não chegavam as longas horas do dia. E da noite.
A morte bateu-lhe à porta mas apanhou-o deitado. Talvez, por isso, a morte não esperou, como de costume, que perguntassem quem é. E ela, sorrateira, falsa, foi entrando. Talvez por isso ele não tenha tido tempo de fugir dela, apanhado, assim, de surpresa.
Quem sabe se, meses antes, não a terá sentido a rondar a porta, quando decidiu arranjar tempo, finalmente, para pensar em si, para cuidar de si, achando que era tempo de começar a perder peso. A verdade é que me lembrei disso quando recuperei do choque inicial da notícia. Lembro-me, na altura, da alegria da irmã, a dra. Luísa, ao comentar comigo a forma como ele estava a levar a sério a dieta e como eram visíveis os seus efeitos.
Meio atordoados, ainda, perguntamos todos uns aos outros, de novo, como é que isto foi acontecer. E usamos a mesma linguagem, os homens da medicina e os homens e mulheres que nada sabem de medicina.
Para o dr. Rui deixarão de existir problemas, trabalho, causas por que lutar. A família e os amigos não vão mais contar com o seu apoio e a sua presença amiga. E o Benfica terá menos um adepto fervoroso na sua bancada.
Nós, os que por cá ficamos ainda, vamos tentando perceber que sentido é que isto faz.

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