Há muito que deixara de ser dali. Não por vontade própria, que um homem não escolhe o lugar onde lhe crescem as raízes, mas porque a vida, essa cabra esquiva, tem o estranho condão de nos levar para longe daquilo que nos pertence.
Durante muitos anos, regressou sempre que pôde. Bastava-lhe atravessar a placa que anunciava o nome da vila para sentir qualquer coisa a estremecer-lhe por dentro. As ruas desfilavam pela janela do carro, mas ele, ao invés de as contemplar, olhava pelo retrovisor. Não aquele que lhe devolvia a imagem cansada de um velho, mas o outro, invisível, por onde a lembrança nos permite espreitar o que julgávamos perdido.
Por essa janela, as ruas voltavam a ter os passos dos homens que já morreram, as mulheres demoradas à porta, o cheiro do pão acabado de cozer, o perfume da cozedura dos grãos temperados com hortelã e ternura, e os gritos dos gaiatos que jogavam à bola até a noite os mandar de volta para casa. Havia ainda uma venda onde os homens cantavam em coro as agruras da vida, entre minúsculos copos de vinho e peros de São João, aquando da sua época.
Foi ali que aprendera a ser feliz, sem saber que o era.
Agora, reformado, viúvo e cansado de uma cidade onde nunca chegara verdadeiramente a morar, decidiu voltar de vez. Vendeu a casa, despediu-se dos poucos amigos que lhe restavam e trouxe duas malas, meia dúzia de fotografias e a convicção de que ainda ia a tempo de recuperar o que a vida lhe levara.
Enganou-se.
As ruas eram as mesmas, mas estavam vazias. As portas fechadas tinham o ar de quem já não espera ninguém. As pessoas também tinham mudado, ou talvez fosse ele que já não soubesse reconhecê-las. Dividiam-se agora entre ódios, à primeira vista irreconciliáveis, fruto de um tempo político onde reinava a confusão propositada.
Até os hábitos tinham desaparecido. As conversas demoradas, os serões à fresca, as visitas sem aviso, a solidariedade que não precisava de ser anunciada. Tudo sobrevivia apenas na memória do velho, como uma fotografia exposta ao sol, perdendo lentamente a cor.
Começou a fechar-se em si mesmo. Os dias sucediam-se sem que lhe sobrasse uma razão para os distinguir. Às vezes, perdia-se nos retratos que a recordação guarda, à procura de um rosto que lhe explicasse onde se perdera a sua terra.
Foi então que a ribeira se tornou indispensável.
Ia lá todos os dias, fizesse chuva ou fizesse sol. Sentava-se numa pedra e olhava a água, que não sabia de política nem de ressentimentos e continuava a correr, indiferente às pequenas misérias humanas.
No caminho de regresso a casa havia um chaparro. Um velho chaparro de tronco retorcido, que parecia ter nascido antes de todos os homens. Há muito que o namorava em silêncio. Por vezes, demorava-se sob a sua sombra, olhando os ramos, imaginando uma saída para o cansaço de existir. Chamava-lhe libertação, talvez para não ter de lhe chamar desespero.
Mas, todos os dias, continuava a caminhar.
Talvez a felicidade não fosse mais do que isso: não recuperar o que perdemos, mas encontrar, no meio dos escombros da memória, qualquer coisa que nos convença a continuar.

Autocarro de passageiros despista-se perto de Baleizão
Um autocarro de passageiros despistou-se na manhã desta sexta-feira, 30, na Estrada Nacional (EN) 260 (EN260), perto de Baleizão, tendo causado uma vítima mortal e,







