Tio Joaquim Algarvio

Napoleão Mira

Escritor

Tenho um primo que ia namorar a cavalo. Subia a avenida de Nossa Senhora da Esperança em Entradas a galope e, a trote, os largos degraus em forma de passeio, fazendo menção de entrar casa dentro montado no imponente equídeo de modo a impressionar a sua amada.
Eu, pequenito, admirava-o por isso. Era uma espécie de herói, assim como o que eu queria ser quando fosse grande.
Depois foi para a marinha e ainda mais impressionante ficou. Imaculadamente de branco fardado, montado na sua Norton de inúmeros cavalos. Sempre os cavalos a dominarem a sua vida, mesmo que imaculadamente vestido de branco. E namorava a minha prima, que era professora regente e usava óculos. Gosto mais das professoras regentes do que das professoras oficiais, mas não me perguntem porquê. Não saberia responder. É apenas uma tendência, um gosto, se calhar gosto mesmo só do nome: regente!
Estamos no verão, daqueles verões alentejanos que queimam olhos e vidas e deixam na pele a visível marca da sua passagem. Meu tio Joaquim Algarvio puxa de duas cadeiras, uma grande para ele e uma mais pequena para mim. Rapa de uma onça de tabaco. Retira duas mortalhas zig-zag e enrola dois cigarros, um grande e um pequeno. O grande é para ele. O pequeno é para mim. Ele terá cerca de quarenta anos. Eu, pouco passo dos quatro. Ele puxa do isqueiro a gasolina, acende o dele e a seguir acende o meu, traça a perna e diz-me para fazer o mesmo. E ficamos ali, sentados à sombra, vendo a vida passar e fumando; ele, o cigarro grande, eu, o feito à minha dimensão.
Aí a meio do cigarro, ouço ao fundo o ruído do galope do cavalo do primo Manuel Madeira. Minha prima Felicidade, fazendo jus ao seu nome, também o deve ter ouvido e, em gritinhos de quem sente borboletas na barriga, espera ansiosamente o seu cavaleiro andante.
A sombra já desceu sorrateira todos os degraus. Até já engoliu uns metros da avenida, sinal que já passa das seis. Minha tia Francisca, mulher de meu tio Joaquim Algarvio, chama-nos para dentro, para merendar.
O cheiro daquela cozinha ainda hoje me persegue. É sexta-feira, dia de cozedura. O perfume que o pão exala preenche-me os sentidos. Minha tia acaba de fritar carapaus, dos mais pequeninos. Jaquinzinhos. Carapau do gato, como eram chamados.
A cozinha é interior, a luz que recebe vem através da telha de vidro. Meu tio senta-se no foco dela e dá-me a sensação de que é um iluminado.
O café acabadinho de fazer, os carapaus acabados de fritar, o pão acabado de cozer e eu acabado de ser feliz, olho o meu tio como se olhasse para um deus. Conta-nos partes umas atrás das outras. Minha tia, ocupada com tantos afazeres, não tem tempo para as desmentir a todas.
E assim, este contador de histórias, enrolador de cigarros, semideus debaixo da luz da telha de vidro num dia de verão de escaldar, marcava o destino deste menino que resolveu escrever acerca desse dia, mais de sessenta anos depois.
“Fume já o meu filho que é para parecer um homem!” — dizia o meu tio depois de regressarmos à fresquidão da rua. Eu que nem criança era, e o meu tio a querer que eu parecesse um homem!
E o meu primo montado no seu corcel a desaparecer ao cimo da rua. Primeiro, o desenho imponente da figura que os dois descreviam; depois, o ruído musical das ferraduras contra as pedras da calçada em compasso acertado a esvaecer, assim como quando baixamos o volume do rádio.
E eu, era tão feliz com estas pequenas coisas!

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