Tempos ruins

Vitor Encarnação

Escritor

É difícil viver nos tempos que correm, só com uma boa dose de indiferença, ingenuidade, loucura ou fanatismo é possível não ficar amargurado com o que se passa neste mundo. Qualquer outra postura mais equilibrada e dialogante está condenada a ser trucidada pela violência, pela maledicência, pelo fanatismo, pelo rancor.
A cultura e o conhecimento estão moribundos, quase mortos, e o mais certo é morrerem em breve.
Eu já não sei o que diga aos meus moços nas aulas, já não sei o que posso ou devo dizer sobre estes tempos ruins, sobre este mundo que desaba.
Dantes sabia, dantes acreditava no poder do diálogo e na boa vontade das pessoas, não tinha receio de dar a minha opinião, as aulas eram espaços de debate, de concordâncias, de discordâncias e de conclusões. Conclusões baseadas na história, na filosofia, na sociologia, na antropologia, na literatura.
Agora luto contra os algoritmos das redes sociais, as frases feitas, a réplica dos discursos de ódio, e já não sei o que diga, falta-me ânimo para combater tais dislates, principalmente quando os alunos me dizem que é isto que os seus pais também acham. E sim, concordemos ou não, são os pais os responsáveis pela educação, leia-se princípios, leia-se valores, dos seus filhos. Não podemos achar isso só quando nos dá jeito, mesmo que isso nos preocupe e desgoste profundamente.
Tenho de ter cuidado, não por ter medo de exprimir uma opinião política, ou seja de me posicionar perante o que me rodeia, mas sim porque na sala de aula eu tenho uma posição privilegiada de autoridade, sou eu que traço rumos, e porque os alunos dependem da minha avaliação eu não quero que eles fiquem condicionados na sua maneira de pensar, não posso impor a minha verdade nem, infelizmente, fazer uso absoluto das boas lições que a vida em democracia me deu. Eu aprendi que a democracia não é vingativa, a democracia não se aproveita nunca dos mais fracos, dos mais vulneráveis e dos mais crédulos.
A escola enquanto estrutura e método e o professor enquanto executor dessa doutrina, baseada no humanismo, na arte, no discernimento e no saber, já não sabem o que devem fazer e o que podem fazer, que papel devem e podem desempenhar naquilo, cada vez mais difuso, cada vez mais partido, a que se chama sociedade.
O professor tornou-se um mero operário reprodutor de um conhecimento formatado, asséptico, sem desvios, sem poder emitir juízos de valor, sob pena de ser acusado de trilhar caminhos ideológicos prejudiciais aos alunos e com isso interferir na construção de um determinado modelo social e económico.
Quais são hoje em dia os limites de liberdade de expressão de um professor? Pode ou não um professor, na sala de aula, ser solidário com um país invadido, condenar uma intervenção num país soberano, ficar contente com a deposição de um ditador, defender um governo ou acusar um governo, dizer que é imoral as horas de espera num hospital, afirmar que é indigno que morram pessoas à espera de uma ambulância, defender a multiculturalidade, defender a imigração e ao mesmo tempo defender regras para a imigração? Pode ou não um professor, na sala de aula, fazer juízos de valor sobre políticos, sobre os inúmeros e impunes maus intérpretes da democracia, sobre a mentira que se propaga sem pudor, sobre o oportunismo, sobre a democracia e sobre o fascismo e sobre aquilo que os distingue e em última instância nos salva a todos? Pode ou não um professor que levou décadas a fomentar a liberdade e a tentar formar cidadãos livres, indignar-se quando ouve defender Salazar? Pode ou não um professor intervir quando ouve um jovem de treze anos a falar de Salazar como se soubesse quem foi e o que foi Salazar? Deve um professor desfazer-se completamente das suas convicções para não ferir suscetibilidades partidárias ou ideológicas?
O ensino público deve ser também uma intervenção no espaço público, ou o ensino público deve ficar refém da moral e dos valores de quem, em determinada conjuntura política, dita e organiza os currículos? O que é hoje a escola, o que é hoje um professor?
Nestes tempos ruins, escrevo o sumário e depois vou tentando ensinar qualquer coisa que se aproveite para a vida.
Entretanto, enquanto vou dando a minha aula, ouço coisas que me fazem doer a existência toda. De facto, ninguém sabe para o que está guardado.
Mas acreditem que nem tudo está perdido. Nas minhas turmas e nas casas onde os meus alunos vivem, no seio das suas famílias, há ainda muitos democratas que não deixarão que o ódio vença.

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