A aldeia de Vale Seco, lá no Baixo Alentejo pobre e profundo dos anos sessenta, sobrevivia agarrada à terra seca e dura e ao que esta permitia cultivar.
Naquela véspera de Natal, o frio chegara mais cedo, a mordiscar as casas caiadas que se encolhiam umas contra as outras, como se assim trouxessem algum aconchego aos que nelas se abrigavam.
José, terminada a quarta classe, agora com onze anos, era já moiral de porcos, guardador de sonhos e de uma vara imensa que conduzia até ao montado à cata de bolota, localizado do outro lado da ribeira que circundava a aldeia.
Nesse 24 de dezembro levava consigo o irmão mais novo, Júlio, de seis anos, já que a progenitora não tinha quem dele cuidasse nessa atarefada jornada.
Angelina, a mãe, tentava preparar a consoada possível. Num tempo em que a fome espreitava em cada esquina, aquela galinha criada o ano inteiro teria naquele noite o destino final. João, o pai, só voltaria do trabalho no monte ao entardecer e a irmã Catarina, de oito anos, agarrada à sertã dos fartos e filhós, ajudava com afinco, como se fosse já mulher feita.
A manhã fora mansa, mas a meio da tarde — vindo lá das bandas de Beja — o céu enegreceu e começou a engrossar em novelos, anunciando trovoada séria. O vento virou agreste, fazendo esvoaçar a roupa nos estendais, trazendo um cheiro a terra molhada que não enganava. Pouco depois, o céu abriu-se num estrondo. A chuva caiu pesada, rápida, zangada. Enquanto José procurava manter os porcos reunidos, a ribeira começou a encher a uma velocidade assustadora. Quando já quase não se viam as passadeiras, percebeu que eram horas de regressar. Só que era tarde demais. Ao chegarem à margem, só viram água espessa, castanha, roncando como um bicho enraivecido. As passadeiras tinham desaparecido. Não havia forma de atravessar.
— Zé… E agora? — questionou Júlio, de olhos muito arregalados e deveras assustado.
José engoliu em seco. O vento trazia o cheiro a lenha queimada nos chupões vindo da aldeia ali tão perto… mas, de repente, tão distante e inacessível.
— Vamos para trás do monte — decidiu José — A água aqui é perigosa. Pelo menos lá estaremos a salvo.
As horas passaram. A noite caiu. A trovoada não dava tréguas. Os irmãos abrigaram-se debaixo de uma árvore tremendo, sem saber que, na aldeia, o pânico já se instalara.
Quando Angelina percebeu que os filhos não haviam regressado, soltou um grito que percorreu a negritude da noite e ecoou de casa em casa. A vizinhança juntou-se-lhes. Alguns homens pegaram em cordas, outros em pás, enxadas ou forquilhas, todos com tochas acesas à pressa nos fornos e lareiras. Em pouco tempo, eram dezenas de figuras incandescentes a romper a escuridão caminhando em direção à ribeira, archotes a arder na ventania, gritos aflitos em demanda dos rapazes:
— ZÉ!
— JÚLIO! — ONDE ESTÃO? MOÇOS, RESPONDAM!
O vento engolia tudo. O roncar feroz da ribeira apagava qualquer eco. Do outro lado do outeiro, só silêncio. Só medo. Os pequenos não ouviam nada. Apenas água, trovões e relâmpagos cada vez mais próximos, mais assustadores, e o coração aos pulos.
Foi então que, já noite cerrada, José, exausto, corpo contra corpo, procurando aquecer o mano mais novo, ouviu um som que destoava de toda aquela fúria natural: um certo tlim… tlim… tlim ritmado, agudo e metálico, como um guizo antigo a balançar devagar. Ergueu a cabeça. Viu primeiro a cabeça da mula, depois o vulto do homem que a trazia de arreata. Vinha encharcado, envolto num capote escuro, chapéu enterrado, caminhando como se conhecesse cada pedra daqueles montes.
— Estão perdidos, rapazes? — perguntou, num tom sereno que parecia acalmar até a trovoada.
— A ribeira ta…ta… tapou as passadeiras… — gaguejou José, algo assustado, tentando proteger Júlio que o abraçava. — Não conseguimos passar.
O homem acenou, devagar.
— Há sempre caminho. Às vezes, apenas não o vemos. — E avançou com a mula, que trazia ao pescoço o tal guizo de bronze. A cada balanço arrancava o mesmo som suave: tlim… tlim… tlim. Aquele toque, tão singelo, parecia ser o único capaz de amainar o barulho do temporal. A mando do homem, José e Júlio subiram para a garupa. Quando se aproximaram da ribeira, os irmãos não queriam acreditar: a água, que antes era revolta, cuspindo raiva, corria agora serena como se de um riacho de verão se tratara; como se o mundo tivesse feito uma pausa para lhes abrir passagem. A mula entrou na fraca correnteza com firmeza. Não escorregou. Não hesitou. Do outro lado, já na margem certa, no caminho de Vale Seco, o homem parou, olhou para os irmãos e disse:
— Vão depressa. Os vossas pais estão em cuidados. Hoje, aqui… ninguém fica perdido. — José queria agradecer, queria perguntar quem era, de onde viera, como sabia o caminho no meio daquele temporal? Mas, quando virou a cabeça… o homem sumira-se; já não estava lá. Nem a mula. Nem o guizo. Apenas o zunir do vento que antecede o silêncio após a tempestade.
Ao chegarem à aldeia, viram as tochas ainda acesas, o pessoal descrente a recolher às suas casas e os pais desesperados à espera de um milagre.
Nisto alguém gritou — “ESTÃO AQUI! ESTÃO AQUI!” — a aldeia inteira correu para eles. Angelina caiu de joelhos, agarrando os dois filhos como se precisasse de sentir o peso deles para acreditar. João, o patriarca, chegou quase ao mesmo tempo, encharcado, olhos rasos de água que não era só da chuva.
Quando os rapazes contaram o que acontecera, ninguém soube o que dizer. No dia seguinte foram ao local. A ribeira estava novamente impossível, furiosa. Não havia pegadas, nem marcas de cascos, nem vestígio de alguém ter passado ali.
— Ouviram o guizo? Ouviram? — insistia José, colocando a mão em concha junto ao ouvido, perante a incredulidade dos que assistiam. — É um guizo grande, como os das bestas em dia de romaria… — dava como exemplo. No entanto só ele parecia escutar aquele tlim…tlim…tlim…salvador.
A aldeia caiu num silêncio cheio de respeito mas também de dúvida. Uns acreditavam, outros não.
Desde esse ano, reza a tradição que, em certas noites de Natal, quando todos dormem e o frio chega a gelar o ar, alguns moradores acordam com um som longínquo, leve, ritmado: tlim… tlim… tlim… Vem da ribeira, ou do monte, ou de lugar nenhum. Um som que ninguém consegue seguir, mas que os que acreditam reconhecem. O guizo da mula que, naquela noite, trouxe os dois irmãos de volta para casa.

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