Novo presidente da CCDR quer “internacionalizar a região do Alentejo”

Ricardo Pinheiro - presidente CCDR Alentejo

Recém-eleito presidente da CCDR do Alentejo, Ricardo Pinheiro revela em entrevista ao “CA” as prioridades para o seu mandato, em que pretende manter uma postura de proximidade e parceria com os autarcas da região.

Com que ambição parte para esta “missão” de ser presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo?

Olhe, se tivesse que escolher um desígnio para aquilo que foi a minha candidatura, seria mesmo afirmar e internacionalizar a região Alentejo. O Alentejo é uma das regiões mais adaptadas àquilo que é uma das principais estratégias europeias – a criação da indústria verde europeia – e insere-se em muitos dos aspetos que temos para potenciar esta possibilidade da atração de investimento externo. E há um desafio internamente, que é afirmarmos os nossos atores regionais, introduzir voz ativa por via da CCDR e em articulação plena com cada um dos autarcas do Alentejo, para existir uma relação onde aquilo que sejam as principais sindicâncias do ponto de vista da gestão autárquica se possam fazer notar à escala nacional e também internacional. Há uma segunda dimensão, que é a captação do investimento público e das principais áreas de valorização do Alentejo. Claramente o Alentejo deve responder, de uma forma mais rápida, eficaz e eficiente, àquilo que são as expectativas das empresas e da economia do território em relação a expansão. E na captação de investimento externo, responder de uma forma absolutamente proativa, no sentido de introduzir confiança naquilo que seja o acolhimento de projetos na nossa região. É preciso percebermos que o Alentejo está em permanente competitividade com outras regiões. Acho que esta questão nunca foi assumida da forma que também a tenho verbalizado nos últimos tempos, mas de facto o Alentejo deve ter fatores de competitividade completamente focados na forma como percebemos aquelas que são as regiões com as quais estamos em competição direta.

Em que sentido?

Recordo que temos uma plataforma logística no Corredor Internacional do Sul, as áreas da logística no Alentejo e as empresas do Alentejo estão a competir com outras regiões, nomeadamente a área metropolitana de Lisboa e a área do Porto, o norte de Lisboa… São questões desta natureza que devemos introduzir, para ganhar esta dimensão de atratividade em relação ao ajustamento das empresas ao território do Alentejo.

Mas estando o Alentejo a “competir” com outras regiões, que fatores podem fazer a diferença em prol do nosso território?

A Europa tem uma estratégia “verde” para a promoção e para a projeção de matérias críticas raras e atração de investimento para explorar, para tratar e para tornar comercializáveis áreas tão importantes, por exemplo, como o armazenamento de energia no espaço europeu. É óbvio que temos um espaço onde há matérias críticas raras, mas é preciso percebermos de que forma somos ágeis a otimizar alguns dos investimentos. Dediquei muito tempo da minha vida nos últimos anos à área da energia, a perceber toda a dinâmica associada a esta transição energética no espaço europeu e, claramente, é preciso sermos muito rápidos na forma como esta dimensão de competição e de valorização das nossas características endógenas conseguem destacar-se à escala europeia. Falei nas matérias críticas raras, mas também posso falar em áreas tão importantes como muita indústria associada ao consumo de energia renovável – e o data center da Nexus em Sines é bem exemplo disso. 

“O Alentejo é uma das regiões mais adaptadas àquilo que é uma das principais estratégias europeias – a criação da indústria verde europeia.”

E o Alentejo, pelo potencial de instalação de fontes renováveis – ainda que existindo uma necessidade de coabitação com aquilo que são os habitats naturais e a Reserva Agrícola Nacional –, tem aqui uma valorização interessante nessa matéria. Depois existem áreas importantes como a indústria da defesa nos três grandes polos que o Alentejo desenvolveu à volta da indústria aeronáutica: Ponte de Sor, Évora e também Beja, com o potencial do aeroporto. Temos claramente que perceber como somos capazes de alinhar estas estratégias no nosso enquadramento europeu – infelizmente, num momento onde a NATO prevê uma necessidade de militarização – e parece-me que o Alentejo fez aqui um caminho. Há ainda uma questão que me parece importante, que é o facto de o Alentejo ter tido o seu primeiro “unicórnio” há relativamente pouco tempo, a Tekever, e é preciso percebermos quais foram as áreas que correram muito bem na instalação deste “unicórnio” na região Alentejo e, com toda a certeza, ter a vontade e a agilidade para captarmos outras indústrias que se encaixem nos principais eixos estratégicos de desenvolvimento e criação de valor no espaço europeu.

Que postura vai adotar junto dos autarcas da região? Pretende trabalhar em parceria com estes?

Agradeço desde já a pergunta, porque comecei a minha carreira profissional com 18 anos na Delta Cafés, ao lado de um homem que se chamava comendador Rui Nabeiro. E ele tinha uma expressão que ao longo dos últimos anos da minha vida tenho praticado e que era, em a resposta à sua pergunta, “o meu território é a proximidade”! Por isso, queremos estar o mais próximo dos problemas e, acima de tudo, ter uma capacidade real de argumentação sobre o que está correto e menos correto a criar valor para o Alentejo e satisfação nas pessoas, para que o possamos justificar à escala nacional e até internacional, junto da Comissão Europeia.

Quais os problemas da região que mais o preocupam?

O Alentejo continua a ter uma taxa de envelhecimento que cresce num ritmo relativamente preocupante em relação à minha visão. Subimos sensivelmente de 178%, em 2011, para 218%, em 2021, e de facto é preciso continuarmos a prever estruturas, a valorização e renovação das estruturas de acolhimento e tratamento na área da saúde e dos cuidados sociais. Também importante, no Alentejo a população licenciada são sensivelmente 13% das nossas pessoas. A academia tem feito um trabalho enorme no território, tanto os politécnicos [de Beja e Portalegre] como a Universidade [de Évora], mas é preciso acelerarmos esta relação da transferência de competências das universidades para as empresas. E também ajustar aquilo que é a formação e a qualificação do território, nomeadamente nestas grandes instituições, àquilo que são as necessidades reais da nossa região.

Existe o risco do Alentejo perder cerca de 700 milhões de euros no próximo quadro comunitário plurianual, por deixar de estar classificada como região menos desenvolvida e passar a integrar o grupo das regiões em transição. O que pode ser feito para contrariar esse eventual desfecho?

Temos de justificar bem, alinharmos bem aquilo que é a nossa unidade territorial e as principais características, no sentido de se continuar a demonstrar ao país e à Europa que o Alentejo é uma região que precisou e continua a precisar dos fundos estruturais para continuarmos a introduzir fatores de atratividade e de inversão do processo demográfico.

EM DESTAQUE

ULTIMA HORA

Role para cima