Vivo, o capital não tem pátria

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Alberto Matos

dirigente do BE

Está para durar a novela da oferta da Telefónica para a compra da participação da PT na Vivo, a maior operadora de telecomunicações da América Latina. Chumbada (para já) pelo recurso à golden share que o Estado português detém na PT, a operação está longe do seu termo.
Seguiram-se a condenação do Tribunal Europeu, instigada pela Comissão Barroso (o ultraliberal mentiroso da cimeira dos Açores) e a nova proposta de negociações da Telefónica à PT.
Enquanto se aguardam as cenas dos próximos capítulos, o comportamento de alguns actores é revelador dos interesses em jogo e da seriedade das suas convicções.
O patriotismo dos banqueiros, pela voz de Ricardo Espírito Santo Salgado, mede-se em milhões de euros. O fervor do “núcleo duro nacional” transformou-se em entusiasmo pela venda das acções da Vivo. Numa curiosa cambalhota, concluiu que o recurso à golden share pode provocar uma OPA hostil da Telefónica sobre a totalidade do capital da PT, face à qual o Governo deverá recorrer… à golden share!
Em tempo de Mundial, alguns comentadores viram no chumbo à compra das acções da Vivo pela Telefónica uma espécie de desforra da triste saga queirosiana na África do Sul ou, quiçá, uma nova Aljubarrota. Empolgamento descabido: afinal é apenas o ensaio dum novo Tordesilhas para as telecomunicações da América Latina – e é sabido que a História costuma repetir-se como farsa.
Entre Sócrates travestido de “padeira” e Passos Coelho de visita a Aznar, onde paira o espectro de Manuela Ferreira Leite e o silêncio ensurdecedor de Cavaco Silva?
Não estando em causa os destinos da pátria, tudo se resume a saber se a venda das acções da Vivo é ou não um bom negócio… para quem. E o problema não se reduz à existência ou não da golden share, sempre transitória. O cancro foi a própria privatização da PT e não só.
A crise financeira e a nacionalização dos prejuízos da banca tornaram claro que a privatização da GALP, da EDP, das telecomunicações, dos bancos e seguradoras foi um péssimo negócio para os trabalhadores e o povo português. A ameaça estende-se agora a serviços públicos como a água, a educação, a saúde, os comboios e até os CTT, até hoje intocados nas mãos do Estado.
O PEC acordado com o PSD é a prova de vida do Governo Sócrates, cuja firmeza anti-neoliberal vale tanto como o patriotismo de um Ricardo Salgado. E o ministro Teixeira dos Santos não o deixa mentir: na longa lista de privatizações do PEC não há mais lugar para golden shares…
O negócio da Vivo irá terminar com mais uma “parceria ibérica”. Na fase actual do capitalismo, os diversos sócios estão condenados a disputas e alianças à mesa do conselho de administração da mesma transnacional. Se os EUA e a China se entendem para estancar a crise financeira, o que vale uma guerreia entre a PT e a Telefónica?
Hoje é mais evidente a velha máxima: o capital não tem pátria, nem cor, nem cheiro, nem alma e atinge o seu grau absoluto de sublimação na lavandaria dos offshores.
Os trabalhadores têm coração, alma e vida, amam sem complexos a sua região e o país, mas não são joguetes do patrioteirismo serôdio da burguesia. E a sua luta tem uma dimensão transnacional.
Na agenda alterglobalista, aí estão a greve geral decretada em Espanha para 29 de Setembro e o apelo do Fórum Social Europeu, reunido em Istambul, a uma jornada de luta europeia e mundial para que não sejam sempre os mesmos a pagar a crise.
Aí sim, vale a pena gritar: Viva la Roja!

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