Uma Rosa chamada Esperança

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Arsénio

eleito pelo PS - AM Beja

Finalmente foi quebrado o maléfico eixo Merkel-Sarkozy. Mais notável é o facto se atendermos que a França é um país eminentemente conservador e que vota, em eleições presidenciais, quase sempre em candidatos de direita. Mais notável se atendermos que não é habitual um Presidente não conseguir ser reeleito, mesmo em França, onde tem funções executivas que o tornam na principal figura política do país. Mais notável se atendermos que em bom rigor Sarkozy poupou grandemente os franceses a grandes sacrifícios a que foram sujeitos cidadãos de outros estados da Europa. Sarkozy quis garantir primeiro a sua reeleição.
A partir de agora os abstratos e nebulosos mercados, os dirigentes do Banco Central Europeu, a chanceler alemã, os dirigentes do Fundo Monetário Internacional e muitas outras poderosas instituições ligadas ao mundo do capital e da finança irão certamente pressionar o sr.Hollande para que recue em muitas das suas propostas eleitorais e para que fale mais em austeridade e menos em crescimento.
Esta vitória não será certamente nenhuma receita milagreira para que, subitamente, tudo se altere na Europa. Não será num curto espaço de tempo que os indicadores se poderão inverter e que a Europa retomará um caminho de crescimento. Mas esta vitória da esquerda francesa vem abrir as portas à esperança de muitos milhões de cidadãos a que era proposta uma única receita: a austeridade. A partir de agora falar-se-á também em crescimento. É que a França não é propriamente nem a Grécia, nem Portugal, nem a Irlanda. O sr.Hollande, como Presidente da segunda maior economia da Europa, tem voz perante a sr.ª Merkel e pode dizer-lhe que não as vezes que entender, não se limitando a ser o mero moço de recados que, por exemplo, o dr. Pedro Passos Coelho é. Muito gostam alguns por cá de dizer que nós não somos a Grécia. Pois bem, importa agora dizer a esses que a França não é Portugal e que esta receita exclusiva da austeridade está a levar os países que são obrigados a praticá-la à asfixia económica e ao caos e impasse político (veja-se o caso das eleições gregas. É caso para dizer aos senhores da “troika” que semearam ventos e que agora estão a colher uma enorme tempestade).
A partir de agora teremos de falar necessariamente do relançamento do investimento público; a partir de agora teremos certamente de falar do lançamento das denominadas “eurobonds”, obrigações da zona euro a taxas de juro muito vantajosas para os estados pequenos e que se financiam a taxas altíssimas nos mercados; termos de falar do fim do aumento da idade da reforma e do congelamento de salários e da escalada, insuportável, da carga fiscal. Terá de haver austeridade na Europa durante um longo período. Ninguém duvida. A mensagem foi recebida e compreendida por todos. Estado, empresas e famílias. Contudo tem de haver espaço para que a economia respire e mantenha postos de trabalho. É disso que se trata e, em bom rigor, com o directório Paris-Berlim, com o sr.Cameron no governo britânico e com o sr.Rajoy sentado no palácio da Moncloa, em Madrid, não se vislumbrava qualquer raio de luz no fundo do túnel.
Por isso esta vitória do sr.Hollande tem um efeito tão refrescante, tão balsámico e tão poderoso sobre toda a Europa. Surge em contra-ciclo à mensagem que é difundida pelos media europeus de que não haveria alternativa ao que se estava a fazer.
Sou um defensor do aprofundamento do projecto europeu, que considero ser notável e que consegue albergar 27 países, tão diferentes e tão distintos, debaixo de um único tecto. Considero por isso, também, que as boas relações entre Paris e Berlim são fundamentais para puxar por todo este complexo painel. São dois países notáveis de que nós europeus nos devemos orgulhar. Porém, este unanimismo político em torno da ideia única de austeridade, sem olhar para a vida das pessoas em concreto, quase que matava a ideia de Europa tal como foi concebida na década de 50 pelos precisamente franceses, Robert Schuman e Jean Monnet.
Por isto, a vitória de Hollande sabe a revolta dos povos, a um “não” expressivo. Os franceses gritaram, democraticamente, “basta”! É uma vitória com espírito de solidariedade, uma vitória dos excluídos, dos que não têm voz, mas que sofrem, mais do que quaisquer outros, os efeitos da crise na pele. A partir deste grito de libertação da França, as “troikas”, os FMIs, os governos de direita mais conservadores da zona Euro terão de estar mais atentos. Se o não fizerem arriscam-se a ter mais eleições como as da Grécia, a terem mais revoltas das pessoas e a ficarem sem o dinheiro que tanto amam e que a muito custo e a juros altíssimos emprestaram a estados em dificuldades.
Sou pelo cumprimento integral dos acordos assinados pelos estados que recorreram aos mecanismos de auxilio. Mas nem uma vírgula para lá do estipulado e com espaço para o relançamento do investimento público e para o consumo, ainda que mais moderado, das empresas e das famílias. Afinal, com espaço para o emprego.
Hollande terá, como disse, contra ele o poder avassalador de todo o mundo da alta finança e, associado, da grande comunicação social. Não sei se aguentará. Com ele tem uma maioria de cidadãos do seu país e também milhões de outros anónimos de esquerda que não se conformam com o rumo que a Europa estava a seguir, mas que entendem que o modelo europeu é dos melhores que o homem já criou.
Não haverá milagres. Mas há esperança e há alternativas.
Cabe agora a cada político, a cada governo, conscientemente, interpretar o resultado das eleições francesas e a mensagem que o povo transmitiu.

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