Desafios exigentes

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Sebastião

presidente da Câmara de Almodôvar

Contrariamente ao que vinha sendo defendido por uma série de especialistas em matéria económica e de política internacional, a incerteza voltou aos mercados, ensombrando a tão esperada retoma económica da eurozona e mesmo, em termos mais globais, dos países da OCDE.
Uma vez mais, a Grécia fez tremer as bolsas e a tentativa de relançamento da zona euro, estando a Europa e o mundo suspensos pelos futuros resultados eleitorais deste país, cujos cidadãos serão chamados, pela segunda vez no espaço de um mês, a decidir quem deve governar os seus destinos.
Não deixa de ser paradoxal que um país sem uma dimensão internacional assinalável e sem um peso de relevo na economia da zona euro, possa provocar ondas de choque tão violentas como as que têm sucedido nos últimos dois anos, mas sobretudo durante este mês de Maio.
Aquando do resgate de Portugal, muitos eram os analistas nacionais e internacionais que comparavam a nossa situação com a da Grécia, a qual já havia recorrido ao pedido de ajuda internacional.
Diariamente, Portugal aparecia nas “bocas do mundo” como um caso acabado de incapacidade de lidar com a crise em que estava mergulhado e de reduzir a despesa pública, que, entretanto, atingira foros de uma irresponsabilidade sem paralelo na história nacional.
Contudo, volvido um ano do plano de resgate, e apesar dos portugueses enfrentarem uma série de dificuldades e do desemprego ter disparado para níveis preocupantes, o certo é que Portugal tem recuperado a sua dignidade e bom nome nas instâncias e nos mercados internacionais.
À luz do programa de ajustamento financeiro, temos cumprido os compromissos assumidos e os resultados neste campo têm sido positivos: cumprimos a meta da redução do défice público, reduzimos, de forma significativa, o desequilíbrio externo através de uma resposta positiva no lado das exportações (sendo muito interessante a diversificação dos mercados) e da diminuição do consumo interno,
Esta política foi conseguida com alargado consenso parlamentar e social.
Só assim tem sido possível reduzir a pressão sobre o ranking nacional e, em muitos casos, Portugal é apontado como um bom exemplo de cumprimento de metas orçamentais e de redução do endividamento público.
Esta evolução positiva não tem sido por mero acaso.
De facto, as medidas governativas de redução do défice público, em muito penalizadoras para as famílias e difíceis de explicar e de serem aceites pelos portugueses, bem como a alteração à lei laboral, revelaram-se positivas à luz dos mercados e dos nossos parceiros comunitários.
A questão importante que exige medidas rápidas é se seremos capazes de equilibrar este ajustamento financeiro inevitável, com políticas que garantam a coesão social do país, isto é, se os mais desfavorecidos na nossa sociedade estão suficientemente protegidos e garantidas as condições de cidadãos de pleno direito no Portugal moderno, desenvolvido e solidário, que queremos construir.
A questão importante é encontrar a fórmula de voltarmos a crescer economicamente para invertermos a subida do desemprego e mantermos o controlo financeiro da despesa pública do país, das empresas e das pessoas.
Estes são, por ventura, os principais desafios que se nos colocam no futuro imediato.
Vamos esperar esta quarta avaliação da “troika” e voltar a este assunto na próxima crónica.
Penso que Portugal tem capacidade e vontade, espero que factores externos não nos impeçam de o conseguir.
Infelizmente, e de forma inversa, a Grécia não tem conseguido adoptar as medidas acordadas com a “troika”, fruto de uma instabilidade política grave e da falta de diálogo e consenso social.
Mas, ao que parece, a instabilidade europeia não se confina à Grécia, estando agora a Espanha exposta, como nunca antes acontecera, à atenção dos especuladores internacionais, em grande parte fruto do desequilíbrio das suas contas públicas, de uma arrefecimento da economia e de um desemprego galopante.
A Europa enfrenta desafios sem paralelo que não se resolvem pela mera redução de despesa e injecção de capitais, tanto mais que no actual contexto não existe manobra orçamental que o permita.
Há que inovar, que alargar o conceito de espaço europeu, eventualmente buscando novas formas de organização política, aprofundando a união política, económica e social.
Por outro lado, sem esquecer a qualidade de vida dos cidadãos, é necessário trabalhar mais e melhor, repensar toda uma sociedade assente em conceitos e pressupostos vagos e desajustados de um Estado pseudo-social, há muito esgotado e de direitos adquiridos que o deixaram de o ser, fruto da voragem do tempo.
Em suma, há que, requalificar os recursos humanos existentes e preparar os mais jovens para os novos desafios da humanidade, investir na produção de riqueza e na criação de postos de trabalho, sob pena de estarmos a potenciar uma sociedade cada vez mais desigual e injusta.
Os cidadãos assim o exigem.

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