Uma OPA aos subprimes

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

Sem grandes surpresas para quem está mais atento, o dinheiro rebentou. Como tinha rebentado o preço do petróleo, que chegou aos 150 dólares, há poucas semanas e agora já está a metade. Não sou economista, mas também aprendi uns rudimentos do liberalismo económico do escocês Adam Smith, que vem do séc. XVIII. Já no séc. XX, a auto-regulação dos mercados e a massa monetária em circulação foi motivo de polémica entre Keynes e Hayek. Depois, assistimos a uma maior criação de riqueza pelo capitalismo liberal, comparado com o falhanço das economias socialistas, também chamadas de capitalismo de estado. Andámos por isso entusiasmados com o liberalismo económico, onde foram despontando alguns muito ricos, a troco de muitos muito pobres. Onde também foi despontando um cada vez maior número de desempregados, por quem nunca os sindicatos fizeram greve ou manifestações de rua. Em Portugal, como nos outros países, os sábios opinion makers economistas, todos eles com vários salários e reformas por junto, falavam na necessidade de contenção salarial dos trabalhadores. Ao mesmo tempo que os chamados “gestores” das empresas públicas e privadas se atribuíam altos salários e regalias obscenas, perante a indiferença dos sucessivos poderes políticos, que já sabiam ir usufruir a seguir dos mesmos tachos e benesses. E para esses senhores há ainda os off-shores, uma habilidade para não terem de pagar impostos, como acontece ao comum dos mortais. Ou seja, há muito que não havia auto-regulação dos mercados, mas a ganância de roubar cada vez mais. Não há outro termo. E para os mais atentos, não escapou a reacção do povo americano, que recusou a primeira injecção de biliões de dólares no mercado financeiro, sem ter a certeza que esse dinheiro não ia parar às mãos ou ser gerido pelos mesmos gestores incompetentes que provocaram a actual crise.
O mesmo tem de ser feito em Portugal, onde todos têm na memória os banqueiros com reformas vitalícias perfeitamente obscenas, aquele senhor gestor que pagou milhares de euros ao sr. Scolari por uma conferência de 45 minutos e, nas últimas semanas, aquele senhor das petrolíferas, de aspecto demoníaco, que acha que a gasolina tem de subir todos os dias quando o petróleo sobe, mas quando desce, só ao fim de uma semana é que têm de ser examinados os mecanismos do mercado. Este sr. Horta vem à televisão gozar connosco e ninguém o mete na ordem.
Vamos ver se neste país só há chicotadas psicológicas para os treinadores de futebol, que perdem dois domingos seguidos, ou também há para os gestores incompetentes que fazem o país descer de divisão há vários anos, na tabela do bem estar dos portugueses, ainda por cima principesca e imoralmente pagos.
Esta crise tem de servir para perceber, que os mecanismos de auto-regulação dos mercados não chegam e criam ciclicamente os chamados crashs, que acontecem quando já não há mais dinheiro para roubar pelos especuladores da bolsa e dos mercados. Sendo que os especuladores e os seus lucros fabulosos ficam impunes, e são os mesmos de sempre a apertar o cinto e a pagar as crises.
E em relação à produção de riqueza e distribuição dos rendimentos, volto a chamar a atenção para o sistema social dos países nórdicos. Não há lá ricos tão ricos como nos nossos países. Também não há pobres tão pobres. Há muito menos corrupção. Não se vê é grande interesse em copiar o modelo. Para bom entendedor…

Felizmente que a crise não afectou os nossos mariolas da bola, e os seus jornais. O FC Porto do sr. Pinto da Costa, que pagou viagens ao Brasil, por engano claro, a um árbitro de futebol, já viu o seu presidente receber uma primeira indemnização pelas maldades que lhe fizeram. Vamos esperar pelas próximas. O Benfica do sr. Rui Costa vai buscar em aviões de luxo, quando vêm, mais uns quantos mercenários da bola, sempre jogadores geniais, para recuperar o “glorioso”, esquecendo que o foi em anos idos com jogadores portugueses, que realmente gostavam da camisola. O Sporting tem agora um presidente que, ficámos a saber em entrevista recente, vai à missinha aos domingos de manhã, depois vai comer um brioche à pastelaria Garret, e acaba a manhã a beber uns drinks com os amigos num clube de Cascais. Quando tem tempo de ir ao estádio, vende os talentos da Academia de Alcochete.
Claro que também por estes lados, o dinheiro há-de rebentar, senão rebentou já.

Há algumas semanas atrás esteve internada no nosso hospital, no serviço de que sou responsável, a D. Carolina Almodôvar. A senhora que ofereceu o hospital, e muito mais, à nossa cidade. Sempre que tem de recorrer ao hospital, pois já leva mais de 90 anos, esta distinta e magnânima senhora, pela humildade do seu carácter, nunca invocou o seu gesto para qualquer tratamento de favor. Já tem por vezes passado despercebida no nosso serviço de Urgência, com médicos mais novos. Durante este último internamento, foram alguns acompanhantes e familiares vítimas de um mal entendido provocado por funcionários de uma empresa privada que trabalha no hospital. Esse mal entendido foi prontamente resolvido pelo Conselho de Administração do hospital, que, entre outros méritos, também no aspecto da ética vai devolvendo ao hospital muita da imagem perdida com a gestão anterior. E se refiro este pequeno episódio nesta crónica é para realçar que neste mundo cada vez com menos referências morais, ainda há senhoras que souberam e sabem estar e que, para além das suas ofertas materiais, nos dão lições de vida, que temos, por imperativo ético, dar a conhecer à comunidade.

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