Um Coro para a Cidade

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Mariana Maia de Oliveira

estudante do ensino superior

Se faz sentido assinalar a passagem do tempo por uma questão de organização (auto)biográfica, vale a pena registar aquilo que de bom aconteceu nele – para que o tempo não corra somente como um calendário vazio que se arrasta, entediado, unicamente movido pela periódica obrigação de passar. Era uma vez há cerca de 30 anos e o Coro de Câmara de Beja acontecia.
Datas pares, mormente as que assinalam a passagem de uma década inteira, são tempo de balanços. Celebrações sazonais em que as luzes se acendem durante um momento sobre o trabalho de muito tempo – na sombra, como nos bastidores em que tudo se prepara e nada se mostra, fica o caminho todo que se andou até ali chegar, as suas curvas e contracurvas, os buracos, os lamaçais por onde tantas vezes o avançar custou, a chuva que fustigou a vontade, o vento que ameaçou as forças, as vozes que disseram não, os olhos que desacreditaram, o sonho que não cedeu. trinta anos volvidos, o Coro de Câmara de Beja tem vários motivos para celebrar e todos para ser celebrado. trinta anos passados, o Coro de Câmara de Beja é a prova irrefutável de que os pequenos (grandes) milagres não vêm de nenhum lado senão da persistência inabalável que, nascendo inteira da vontade de uma única pessoa, foi contagiando as dezenas de outras vontades que têm, literalmente, dado voz a esta ideia.
A modéstia e o respeito que são devidos a qualquer coisa que é anterior a mim impedem-me de me alongar em considerações que não tenho a legitimidade de fazer. Resta-me, por isso, com as palavras de que disponho, deixar aqui não um parabéns, que por ser exterior e descomprometido nos exclui das coisas ou nos deixa minimamente implicados nelas, mas um agradecimento por todos estes anos de Coro em que cresceu comigo também a forma de apreciar a sua música. É que, por detrás destas quatro letras colectivas e gerais, esconde-se, quase imperceptível, um conjunto improvável de pessoas tão diferentes quanto semelhantes no mesmo e comum intento de fazer qualquer coisa de verdadeiramente assinalável. Pessoas cujas vidas, sendo profissionalmente tão diferentes, se intersectam no ponto em que as une a mesma vontade desinteressada de produzir beleza. Uma coisa é certa: não fazer é infinitamente mais fácil e confortável do que fazer, assim como criticar uma ausência traz muito menos aborrecimentos do que fazer de facto alguma coisa para tentar preenchê-la. E por isso, perante ideias que passaram da intenção ao papel, do projecto ao ensaio, da ideia de um coro ao Coro de Câmara de Beja – não nos resta senão reconhecer que, afinal, é possível e necessário fazer mais do que aquilo que nos é exigido, porque o queixume é um vício e o tempo ou a falta dele a forma menos engenhosa de desculpar a inércia. Contra todas as lógicas do mundo, continua a haver projectos em que o dar não é uma expectativa de retorno económico de nenhuma espécie, em que o fazer não é um meio para ter mais do que a música de um aplauso, em que o servir não quer dizer submissão mas sim elevar. Na aguerrida luta dos mercados e das bolsas, creio que a paixão continua a valer mais que o euro.
Em tempos de tudo ser mau, o haver bom é quase uma indecência. O perigo é que, se os educarmos para não ver senão na escuridão bafienta que insiste em se lhes colar em cima, os olhos desacostumam-se de perceber a luz e deixam de poder sentir-se iluminados por ela. Se, há 30 anos, um querer espontâneo não tivesse dado à luz um recém-nascido Coro de Câmara, nunca teríamos objectivamente sentido a sua falta, mas haveria certamente uma falta que ficaria por objectivar. Como, de resto, em tudo o que à arte respeita – a sua ausência não dói porque é um desconhecimento, mas corrói porque é uma acidez. Se é certo que em tempos de indigência ninguém se alimenta de música, não é seguro que ela não esteja no ar que se respira.
Se fôssemos gente dada a sentir-se possessiva não poderíamos deixar de ficar alarmados com a evidência de que o Coro de Câmara, apesar de ser de Beja, é também já, em certa medida, do resto do mundo. Estas vozes já soaram muito para além das muralhas da cidade. Tiveram fôlego bastante para se terem feito e continuarem a fazer ouvir além-fronteiras, Áustria, Suécia, Canadá, Bélgica, República Checa; – se foi a isto que pôde chegar uma vontade e uma convicção, imagine-se quanto poder não vive desperdiçado dentro de cada um de nós.
Trinta anos são, efectivamente, tempo de balanços. E, no entanto (pasme-se), as coisas não existem só de década em década, ou em anos com números redondos agradáveis de comemorar. Assim sendo, cá estaremos para uns angulosos 31, os cristãos 33, uns inclassificáveis 37. Sem preconceitos matemáticos, cá estaremos para celebrar a excelência com a continuidade que lhe é devida. Tenho a certeza que a cidade, se pudesse, viria ela mesma agradecer – pelas lógicas limitações físicas e metafísicas do acto, tem alguém que falar por ela. Tenho a certeza que a cidade, se pudesse, estaria na primeira fila a aplaudir; depois, no fim do espectáculo, recolher-se-ia solene à austeridade do seu castelo, nas alturas da sua torre de tamanho à medida deste voo. Valeu a pena porque a alma não foi pequena.

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