Todos juntos

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Sebastião

presidente da Câmara de Almodôvar

Recentemente, os almodovarenses foram surpreendidos com a notícia, não oficial, do encerramento dos serviços de urgência (SAC – Serviço de Atendimento Complementar) do Centro de Saúde local, que funcionava, há vários anos, diariamente das oito às 20 horas. Agora passaria a funcionar na modalidade de consultas de recurso das 8 Às 9,30 horas e das 18 às 20 horas.
Foi grande a nossa perplexidade ao nos depararmos com a decisão da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (Ulsba) desta natureza, sem que os órgãos do Município tivessem recebido qualquer comunicação, pondo, deste modo, em causa o direito à saúde de todos nós.
De imediato, se levantou um clamor popular de indignação e de repúdio, encabeçado pelos autarcas da nossa terra e que culminou com uma grandiosa concentração frente ao Centro de Saúde de Almodôvar, realizada no passado dia 29 de Junho, iniciativa essa amplamente noticiada nos meios de comunicação, regionais e nacionais.
Tal decisão de encerramento, precipitada e sem qualquer fundamento técnico ou de rentabilização dos recursos existentes leva-nos a questionar: porquê Almodôvar?
O problema é tão mais grave, quando o analisamos à luz dos condicionalismos geográficos e demográficos concelhios.
Almodôvar é um concelho com uma extensão de 775 km2, dos quais dois terços (520 km2) são área de serra – a Serra do Mú – com uma rede viária muito acidentada e com uma enorme dispersão populacional. Não podemos esquecer que residem nesta área serrana, cerca de 2.800 pessoas, grande parte das quais com mais de 65 anos e sem meios de transporte próprios ou alternativos.
No novo quadro de funcionamento do Centro de Saúde de Almodôvar, a única solução que resta para os pacientes, porque a doença não escolhe horas, é dirigirem-se ao serviço de urgências do Centro de Saúde de Castro Verde, o que em muitos casos obriga a percursos superiores a uma hora, sobretudo quando residam nas localidades mais ao sul do concelho e na zona de fronteira com o Algarve.
Como tal, o atendimento desses utentes fica mais dificultado ou mesmo comprometido.
Agrava-se o tempo de espera nos serviços de saúde, aumenta o desperdício dos recursos dos Bombeiros Voluntários e os encargos financeiros com a utilização de táxis nas deslocações dos pacientes para Castro Verde.
Mas se tal não bastasse, esta decisão ainda tem reflexos graves na qualidade dos serviços prestados nas urgências do Centro de Saúde de Castro Verde, devido à exiguidade das suas instalações e ao facto de não ter sido acautelado o necessário reforço dos quadros clínicos e dos meios técnicos.
Importa ainda desmistificar as propaladas “melhores condições técnicas dessa unidade de saúde”, quando constatamos que apenas a distingue da de Almodôvar pelo facto de dispor de um simples RX, motivo pelo qual muitas vezes os doentes que aí acorrem têm de ser transportados para o Hospital de Beja, a fim de efectuarem exames complementares de diagnóstico.
Outro factor que deveria ter sido, seriamente, ponderado por quem ditou esta nova política de saúde era o facto das ambulâncias de socorro e de transporte dos Bombeiros Voluntários passarem a prestar um serviço adicional e mais moroso, com perda de horas de espera até ao atendimento do utente ao seu transporte de regresso, imobilizando viaturas e homens, quando a corporação dispõe apenas de duas equipas para todo o seu serviço à comunidade. Ou seja, os Bombeiros Voluntários ficam impedidos de cumprir, adequadamente, outras missões a que estão obrigados na sua actividade de socorro, sobretudo quando devem assegurar o socorro imediato no percurso da A2, com altos índices de sinistralidade e de vigilância aos incêndios florestais.
Em suma, a gestão dos serviços fundamentais do Estado, como o acesso ao Serviço Nacional de Saúde, baseada em meros critérios, falsamente, economicistas, põe em perigo a qualidade de vida das populações e, em última instância, os seus direitos mais básicos e, nessa medida, a sua cidadania.
Por tudo isto, dirigi uma exposição à senhora ministra da Saúde alertando-a para a injustiça do encerramento do SAC de Almodôvar e para os reflexos humanos e financeiros dessa medida e solicitei uma audiência, de modo a poder discutir o assunto.
Urge pois que quem nos governa faça uma análise crítica, séria e ponderada, sobre o que pretende para Portugal.
As pessoas são ou não o nosso maior capital?
Queremos ou não um desenvolvimento equilibrado do país?
Se sim, então temos de ter políticas públicas que garantam oportunidades e direitos iguais para todos, quer sejam na área da saúde quer em todas as outras áreas da vida pública, económica e social.

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