Quem quer casar com a cultura e o conhecimento?

Quinta-feira, 21 Março, 2019

Vítor Encarnação

Um dos propósitos fundamentais da educação, do conhecimento e da arte é distanciar os seres humanos dos seus instintos mais primitivos.
Este é o objectivo que, pese embora as atrocidades cometidas e alguns evidentes recuos civilizacionais, a humanidade tem procurado alcançar.
A criação de princípios e valores, através da religião e da filosofia, a organização das sociedades em estruturas de ensino e educação, a manifestação e a exaltação das sensibilidades artísticas, mais não é do que o caminho que pretende levar ao gradual afastamento dos nossos impulsos básicos que, por sermos animais, estão geneticamente presentes e activos, a maior parte das vezes sublimados, em todos nós.
As sociedades, cada uma à sua maneira, aplicando a sua ética, a sua moral, os seus sistemas políticos, jurídicos e educativos, regulam a forma como cada pessoa deve desenvolver capacidades cognitivas e intelectuais que reduzam o uso do chamado cérebro reptiliano.
A família e as escolas, sem menosprezar a importância e a intervenção de outras entidades públicas e privadas, têm um papel essencial na construção de indivíduos inteligentes, activos, independentes, pacíficos e sensíveis.
Ter conhecimentos históricos, científicos, filosóficos, geográficos, teológicos, biológicos, antropológicos, saber interpretar o seu corpo e a sua mente, entender o mecanismo da sua sexualidade, preservar a identidade individual e colectiva, são ao mesmo tempo direitos e deveres de todos os cidadãos. As sociedades mais desenvolvidas e mais competentes são aquelas em que um maior número de indivíduos aplica estes direitos e estes deveres.
A abordagem simplista deste cronista nesta folha de jornal não pretende menosprezar a importância do entretenimento, da indolência, quiçá da luxúria, na vida real das pessoas. Não é sua vontade valorizar o raciocínio em detrimento das emoções, nem pretende fazer nenhuma campanha a favor da monotonia das leis, dos dogmas ou de qualquer modo de vida mais espartano.
O que aqui está em causa é a conclusão a que este cidadão chegou, fruto de uma regulação familiar e institucional, às vezes dura e maçadora, mas que não o traumatizou, de que o intelecto – leia-se independência, discernimento, reflexão, poder de decisão – é um factor determinante e incontornável para alcançarmos o princípio da dignidade humana.
As televisões, para dar algum sentido ao título deste texto, pela sua larga e profunda influência na sociedade, deviam ter códigos de conduta que, sem abdicarem de conteúdos que promovam o lazer, a distracção e o divertimento, não destruíssem por completo toda a integridade e respeito por si próprios que os homens e as mulheres devem possuir.
A abundância e a superficialidade de alguns programas, a forma ligeira e fútil como apresentam as pessoas e os temas, a forma como as pessoas neles se envolvem e se deixam apresentar, a maneira como o corpo, principalmente o feminino, é exposto, o modo como a língua portuguesa é tratada, o conteúdo das conversas, a patetice, a boçalidade, a ofensa gratuita, a aflitiva sensação de retrocesso, vêm demonstrar que o retorno aos nossos instintos básicos é um caminho muito curto.
Conclui-se então que a única forma de fazer frente a este flagelo quotidiano – um alentejano chamar-lhe-á murraça – é dotar os indivíduos de uma capacidade de interpretação da vida que lhes permita não se deixarem enredar nesta mesquinhez.

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