Por um punhado de areia

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

A praia institucionalizou-se, estratificou-se socialmente e deixou de ser um espaço de liberdade e de contemplação do infinito e horizontes prateados.
Qualquer dia será necessário comprar um pedaço de areia como quem compra uma campa para não apodrecer ao sol. O areal ficará coberto de lápides, ou jazigos para os mais afortunados, que dirão “ aqui jaz fulano e família, nascidos a 15 de Julho e exumados a 31 de Julho”. Para além disso será também obrigatório fazer uma espécie de certificação de competências para que a capitania marítima dê o seu aval à entrada de funcionários públicos, reformados, desempregados e gente remediada.
E só àqueles que se mostrem acomodados às novas leis do usufruto do sol e do parque de estacionamento pago, lhes será permitido transpor as dunas e procurar humildemente um cantinho à beira mar.
A praia está dividida em lotes. Há uma corda que os separa. Bairro residencial apinhado de gente, vivendas com toldos azuis com jardins de areia, novamente bairro residencial de uma só assoalhada de areia, outra vez vivendas, agora de toldos amarelos e guarda ventos.
O casal chegou já o sol fervia, nessa hora em que os bairros residenciais, entalados entre os concessionários, estão absolutamente lotados. O homem foi a um dos bairros e depois foi a outro, tentou abrir o chapéu mas já não conseguiu que as varetas se esticassem sem tocar nos chapéus dos vizinhos. Desalentado, contemplou o céu e o mar, abanou a cabeça, encheu o peito de ar e murmurou umas quantas palavras. Talvez tenha dito para si mesmo que é um homem livre. Caminhou resoluto pelo jardim de areia inabitada do concessionário azul e a meio desse paraíso de espaço espetou o chapéu-de-sol como quem espeta uma bandeira. Ainda a sombra não se tinha acomodado debaixo do chapéu e já um nadador-salvador o vinha salvar das perigosas águas da sua insurreição. Que ali não podia estar. Que tirava a visão. Que os concessionários pagavam e bem para que os utentes – quase todos loiros – pudessem olhar, sem obstáculos, o horizonte e mais uns iates ancorados nele. Pede desculpa, mas não foi ele que fez as regras. Mas o homem com a sua bandeira de risquinhas verdes desfraldada ao vento, não arredava pé. Que a praia não é propriedade que ninguém. Uma vida inteira a descontar! Que venha o cabo de mar. Nem no tempo do Salazar o dobraram, quanto mais agora.
O nadador-salvador, testa de ferro do dono das vivendas de toldos amarelos, tentava a diplomacia. Não se zangue comigo que eu não sou má pessoa, os meus amigos até me chamam Rui Fofinho. Eu só faço o meu papel que é de informá-lo que são quinhentos euros de coima.
As pessoas dos bairros residenciais assobiavam das janelas, dos vãos de escada, das marquises de alumínio. Revoltavam-se contra uns terem tanta areia e outros terem tão pouca.
Acredito que o homem se teria amarrado à geleira se tivesse uma corda ali à mão.

Saí da praia antes de chegar o cabo de mar. Mas posso confirmar que no dia seguinte o casal já estava acomodado no bairro residencial.
A areia movediça deste tempo havia engolido mais uma revolução.

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