Por causa de um pacto ancestral com a curvatura da terra, o sol entrega-se mais cedo ao horizonte e nele repousa, deita-se atrás da noite, para que a lua possa viver mais um pouco.
É este o acordo selado ao crepúsculo. É esta a semente do outono.
E as noites fazem-se gordas, mais fundas. Prenhes de escuridão, deitam do ventre manhãs de geadas que depositam à nossa porta.
O vento que vem agarrado ao ar traz um cheiro a frio e sabe-se lá se o sopro que se ouve na rua e nas gretas das janelas não será o lamento do verão que fechamos nas gavetas das camisolas de manga curta.
E as formigas de asa são carteiros alados pousando no chão do outono, trazendo a certeza de chuva. (De onde vêm estas formigas etéreas? Quem foi que pôs no céu estes bichos de terra e carreiros?)
Lá fora, por cima das terras lavradas, o firmamento forra-se de cinzento graúdo. Chama a si as nuvens e junta-as num teto de bronze e algodão que rouba a sombra às pessoas e às coisas todas. E quando as nuvens se tocam muito ou tudo, quando se excitam de céu e altura, abrem-se em água, às vezes pouca, às vezes toda. E cá em baixo, a terra que é homem e mulher ao mesmo tempo, de tão contente que está recebe a água nova e leva-a para o seu leito, por cada poro, por cada rego. Inundando-se.
E a chuva como que bebe o pó. Torna-o líquido, incapaz de voar. Prende-o à terra se a chuva for pouca, solta-o na corrente de uma ribeira que finalmente se veste de água se for toda.
As folhas caídas são um vestido amarrotado que o vento, com as suas mãos inquietas e descobridoras, tira do corpo rijo das árvores em dias e noites de perdição. E nesse manto de folhas secas, debaixo dos meus pés, crepita, estala a minha infância toda. Como se um vento ao contrário me aquecesse a vida. E assim eu tivesse de novo na boca, nos olhos e nas mãos, os primeiros sabores de tudo: das castanhas assadas no cansaço do fogo – a cinza é o cansaço do fogo –, da planície que arrefece, da samarra que me envolve como uma ternura.
E cada folha é também um bocado de tempo que se despegou para sempre. Até ser pó como eu serei quando todos os outonos se acabarem.
Há um castanho imenso entornado por sobre o mundo.
É a cor do silêncio, acho eu.
E as formigas, as normais, aquelas que nunca provaram o céu, cumprem a sua fatalidade. De pés bem assentes na terra. Algumas delas quem lhes dera ter asas!
E há uma noite em que o tempo entontece porque lhe repetem uma hora. Mas os ponteiros do relógio não são os braços nem o coração do destino. O tempo sabe que não pode nunca ser o que já foi. O que os olhos disseram está dito. Pronto, acabou-se.
O outono faz-me cair para dentro. Empurra-me para mim.
Talvez me leve para o lado da suave mágoa. Da névoa.
Dos maiores ventos.
O outono despe-me mais todas as palavras que digo.
Nada faço para me opor.
Como uma árvore.

Alunos de Alvito vencem competição nacional
Quatro alunos de uma turma do 4º ano do Agrupamento de Escolas de Alvito venceram o concurso “A Criar com Scratch! 2026”, na categoria referente







