Os dias das mulheres

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Mariana Maia de Oliveira

estudante do ensino superior

Efemérides são sempre bons motivos para celebrar colectivamente um tema, mesmo com o perigo de, à semelhança de tudo o que se faz colectivamente, não se acreditar particularmente na causa. E assim nos habituámos, membros orgulhosos de uma sociedade igualitária e justa, a consignar o dia 8 de Março de cada ano à Mulher, com “M” grande e tudo, para que bem se veja como somos pela igualdade de género e como prezamos o papel fundador e importante das mulheres no mundo. Pelo menos uma vez por ano, é garantido que vamos lembrar-nos de que houve mulheres importantes na História, que dedicaremos alguns segundos de profundíssima reflexão a reconhecer que sim senhor, para que quer que seja o sim e seja lá quem for o senhor, e que, porque um dia não são dias, condescenderemos em que se organizem em grupos festivos e expressem em conjunto algum tipo da histeria barulhenta e aguda que tão bem caracteriza o género. Uma vez por ano (a estas alturas chega a superioridade das sociedades desenvolvidas!), está instituído um dia para se ser orgulhosamente mulher, o dia de celebrar conjuntamente toda a sorte de fêmeas que teve o privilégio de nascer no seio de toda esta enternecedora tolerância, o prémio de consolação que, assim entregue com tão generosa compaixão, sempre nos alegra de sofrer desta fatídica condição.
Efemérides são sempre bons motivos para relembrar às pessoas a actualidade de uma causa que tende, pela força do esquecimento, a sair sorrateira da ordem do dia, para recordar a importância de certos acontecimentos passados, para assinalar a memória de alguém notável que assim da lei da morte se vai libertando. É esse o propósito das datas importantes: fazer com que não percamos a memória colectiva de qualquer coisa que de alguma maneira nos define (o Dia da Restauração da Independência), levar-nos a investir uma nova vontade de agir em algo por que vale a pena fazer a diferença (o Dia Mundial da Água), desmobilizar o inexorável processo do esquecimento e fazer com que no seu lugar aconteça a reflexão (os dias que assinalam a luta contra certas doenças). Felizmente, a biologia dotou-nos de maravilhosos artifícios que nos permitem a todo o momento lembrar que somos mulheres, e, por estarmos frequentemente cientes desse facto, não precisamos de um dia que venha anualmente avivar-nos a memória. Como, por outro lado, também não somos uma espécie em vias de extinção, não creio que haja necessidade de alertar periodicamente para a necessidade de nos preservar. Assim sendo, agradecemos sinceramente que no dia 8 de Março tolerem um pouco mais de cor-de-rosa do que o habitual, apreciamos sensibilizadas a generosidade por podermos nesse dia despir o avental; mas não vemos o porquê de se ter convencionado um dia em que podemos ser mulher com um bocadinho mais de entusiasmo.
O perigo de haver o dia de uma Coisa é essencialmente um: o de se propagar como o conforto de uma ilusão um sentimento geral de desresponsabilização. O haver um dia que celebre uma Coisa desresponsabiliza-nos de nos voltarmos a preocupar com ela durante o resto do ano, como se tudo o que há a fazer se condensasse no termo-nos lembrado dela no dia em que ficou oficialmente estipulado que devíamos fazê-lo. Paga-se a renda anual de uma flor e um beijinho comovido, e para o ano voltaremos a lembrar-nos que és mulher com “M” grande; renovaremos o contrato que selaremos com outra flor e outro beijinho comovido, e assim perpetuamente até que tu própria acredites que esse é o teu dia e que não deverás exceder-te muito para além dele, se te demos um dia foi para que te acomodasses nele e ocupasses o menor espaço possível nos restantes.
O caso, porém, é que não cabemos em vinte e quatro horas contadas para que possamos exercer a nossa feminilidade. Estiveram com tanto trabalho a dar-nos como a um presente embrulhado um dia só para nós, como quando as mães, muito de vez em quando, vestem aos filhos uma roupa apropriada e os deixam brincar à vontade, sujar-se na lama, correr até que queiram e, ao fim do dia, ensopados de suor e felicidade, lhes dão um banho revigorante para que no dia seguinte, de novo frescos e perfumados, possam apresentar-se condignamente na escola. Estiveram com tanto trabalho a preparar uma data em que pudéssemos extravasar à vontade as nossas causas estridentes, e, afinal, vai-se a ver e não cabemos todas nessas vinte e quatro horas que nos destinaram.
Para efeitos de comemoração, entendo que talvez fosse conveniente que fôssemos uma colectividade minimamente homogénea, que pudesse responder a uma só voz ao chamamento de 8 de Março, e que tivesse suficiente número de coisas em comum para que ficasse toda incluída num dia único a que, ainda por cima, chamámos da Mulher com “M” grande. Acontece, porém, que o grupo a que chamam de “Mulher” é outra humanidade dentro da Humanidade, com tudo o que de bom, de mau e de indiferente há nela, e que por isso não faz sentido assinalá-la como uma categoria absoluta e delimitada que se governa dentro de si própria. Igualdade é partir da mesma linha de partida, não é porem-nos a meta antes de tempo. Assim, pedimos desculpa pela desfeita: não precisamos de um dia. Agradecemos educadamente a gentileza, mas não precisamos de um dia.

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