Opções políticas

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

José Filipe Murteira

professor do Ensino Secundário

O apagão analógico verificado no dia 26 de Abril permitiu, com a ligação à TDT, tirar algumas conclusões e retomar o visionamento dos canais espanhóis, dada a nossa proximidade geográfica a esse país.
A conclusão mais evidente é a apagada e vil tristeza da oferta nacional (os quatro canais de sinal aberto), comparada com a multiplicidade de canais dos nossos vizinhos (dez canais nacionais, um de notícias, vários temáticos – música, natureza, infantil – e, sobretudo, os regionais Canal Sur e Canal Extremadura). Isto, no que respeita à televisão, já que depois existe uma variedade de canais de rádio também apreciável.
A segunda conclusão que se retira é o importante serviço público prestado pelos canais regionais, que são fruto, em grande medida, da autonomia política que aqui ao lado se verifica. Do Canal Sur (que tem no ar três canais), não falemos, dada a dimensão da grande Andaluzia, com os seus mais de oito milhões de habitantes e a sua importante rede urbana, que a colocam como uma das mais importantes regiões de Espanha.
Falemos, sim, do Canal Extremadura, porta-voz para o mundo de uma pequena, pobre e ultraperiférica região há uns anos e que, graças precisamente à autonomia, obtida em 1983, deixou esse estatuto, para se transformar num território de progresso, respeitado dentro e fora das fronteiras de Espanha.
Para além do entretenimento próprio da televisão, esse canal aproxima e une os extremenhos, com os seus programas sobre a região, que vão das touradas ao desporto (transmitem-se jogos dos clubes regionais, das 3ª e 2ª divisões), passando pelo património natural e cultural e pelas notícias (da política, da sociedade, dos mais pequenos burgos às suas cidades).
E foi num desse programas de notícias que, no passado domingo, fiquei impressionado com a beleza exterior e a brancura e luminosidade interiores do Parlamento dessa região, sedeado em Mérida, no antigo Hospital de São João de Deus (o hospital dos pobres), construído no século XVIII e recuperado para acolher essa instituição política.
Falava-se da inauguração da exposição de um importante escultor emeritense e das obras de arte que ocupam os espaços desse edifício, tornando-o num verdadeiro museu de arte. É prática corrente a realização de exposições no Parlamento da Extremadura, bem como a aquisição e/ou doação de obras dos artistas convidados.
Depois de ver e ouvir essa reportagem, não deixei de pensar no estado de abandono e desleixo em que se encontram alguns dos edifícios mais significativos da nossa cidade, comparando-os com a dignidade desse e de outros aqui bem perto: há uns anos, numas férias de Verão, desloquei-me propositadamente a Málaga para ver o Museu Picasso que, não tendo a dimensão nem o espólio dos seus congéneres de Paris ou de Barcelona, se situa num edifício do século XVI, alvo de uma recuperação exemplar, já premiada internacionalmente.
Falo no edifício do Governo Civil, com as suas deficientes condições, quer para os utentes dos vários serviços que aí se concentram, quer para os trabalhadores desses serviços; falo do Museu Regional e do lamentável estado a que vai chegando, fruto de posturas e decisões que têm condenado à degradação esse magnífico edifício e o seu recheio; falo, finalmente (e numa escala menor, é claro), da imagem de abandono do exterior da Biblioteca Municipal, onde o branco das suas paredes há muito se transformou em cinzento, nada compatível com o excelente trabalho que os seus funcionários aí continuam a desenvolver.
São situações diferentes, mas que contrastam com os exemplos de que falei e com muitos outros. Fruto, como dizia Carreira Marques, numa entrevista na semana passada sobre o estado do Museu, de opções políticas que colocam em causa um entendimento entre os municípios, com cerca de trinta anos, que atribui ao Município de Beja o pagamento de 60% dos seus custos de funcionamento (reduzido, em 2012, para 48%).
Outras fossem as opções e os milhares de euros gastos em 2011 em eventos efémeros de alguns dias (Beja Wine Night ou Beja Brava, por exemplo) poderiam ser canalizados para a Assembleia Distrital, não se atingindo, nesse ano, a dívida de 95 mil euros e não deixando chegar esse importante equipamento cultural regional e nacional ao estado a que chegou.
Afinal, a Lei dos Compromissos é bem recente e não pode servir de desculpa para tudo.

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