O Xico e o Zé

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

Daqui a um ano, o primeiro-ministro e o presidente da Câmara Municipal de Beja (CMB) vão pedir-nos um segundo voto de confiança, uma reiterada oportunidade para no segundo mandato fazerem o muito que não cumpriram no primeiro. O “Xico” e o “Zé”, apesar de aparentes diferenças ideológicas (o primeiro é comunista ortodoxo, o segundo ortodoxo em não ter ideologia) são uma espécie de almas gémeas: ambos cultivam uma imensa arrogância política, mas o exercício do poder, mormente o aproximar das eleições, imbui-os de um estilo mais dialogante. As virtudes dos seus mandatos também são simétricas: um e outro conseguiram restabelecer alguma ordem na selvajaria financeira que encontraram quando tomaram posse, conseguindo equilibrar as depauperadas contas públicas. Não obstante a proeza, que se sublinha e aplaude, quer um quer o outro, não a podem usar como arma eleitoral: no caso da Câmara Municipal de Beja o caos financeiro está relacionado com uma errática política do último mandato comunista, no panorama nacional, por mais que Sócrates procure colar a Barroso e Santana a responsabilidade das contas públicas, o péssimo estado financeiro do país deve-se à irresponsabilidade do Governo Guterres que, sublinhe-se, era um primeiro-ministro amoroso e simpático. Trágico para o país, mas cândido!
Sublinho este ponto, porque gosto de arrogância no exercício de cargos públicos: o melhor Sócrates foi aquele que teve coragem de enfrentar o lóbi das farmácias, procurar mudar o vergonhoso panorama do ensino em Portugal – impondo as aulas de substituição e obrigando a avaliação aos docentes, terminando com a vergonha das promoções automáticas –, não temendo algumas corporações poderosas, embora, no caso dos juízes, em dados momentos ficássemos com a clara sensação, que mais do que procurar credibilizar a Justiça, tentou-se a vingança do Processo Casa Pia; no caso de Francisco Santos, nos primeiros meses de mandato, foi inequívoca a tentativa de moralizar algum clientelismo municipal.
O” Zé” e o “Xico” foram “traídos” pelos seus números dois: no caso de Sócrates a fuga de António Costa para a Câmara de Lisboa marca o declínio do seu Governo, que perdeu o único ministro com competência para fazer gestão política; no caso de Francisco Santos, a gestão política é feita por um número dois, que demasiadas vezes dá a sensação de mandar mais do que o presidente. Verdadeiros siameses, Sócrates e Francisco Santos vão fazer campanha atirando as responsabilidades de fracassos próprios para os outros: o “Zé” vai culpar a conjectura internacional, usando a crise financeira como álibi para as dificuldades internas; o “Xico” vai culpar o Governo, das muitas mazelas da nossa cidade.
O “Xico” e o “Zé” são homens honestos e trabalhadores, que aceitaram o desafio democrático com vontade de ajudar a sua cidade e o seu país! Quando ao fim do dia despem o fato, acreditam piamente que fizeram um bom trabalho e escutam com deleite as palavras mimosas do seu séquito intimo, rodeando-se de pessoas incapazes de exercer a crítica, numa afunilamento intelectual e cívico, exacerbando a sua inata dificuldade em relacionar-se com a crítica. Mas um bom “timoneiro” não se faz apenas de trabalho e vontade, com honestidade e esforço: para liderar uma cidade ou um país é preciso a capacidade de sonhar mais alto, de ver para além do dia seguinte, em suma, de ter um projecto e a capacidade para o fazer surgir. E nem no Portugal de Sócrates nem na Beja de Francisco Santos existe uma estratégia para o futuro, governando-se para o dia seguinte, procurando evitar a tempestade mais próxima, numa lógica de governar para conservar o poder. O “Zé” e o “Xico”, que são politicamente arrogantes, não tiveram a coragem de dar um verdadeiro murro na mesa e varrer as instituições que governam de clientelismos promíscuos, de enfrentar os vícios dos seus partidos, expurgando aqueles que escondidos na sombra, entendem que a gestão da coisa pública é um meio para satisfazerem os seus egoístas interesses privados.
Sócrates, tal como Francisco Santos, têm legitimas expectativas de ganhar em 2009; curiosamente, ficando ambos reféns do PSD. No caso nacional, porque a demagogia à esquerda vai render votos, Sócrates aposta tudo em Ferreira Leite continuar a péssima oposição; no caso da CMB, um mau candidato do PSD pode oferecer a Câmara a Pulido Valente. E quão importantes são as próximas eleições. Com os fundos de Bruxelas a terminar e em plena crise internacional – por ventura a mais grave de quase um século – o país poderá viver um paradigma ideológico, entre os que defendem a liberdade de iniciativa e os saudosistas do Muro de Berlim, que apostam tudo na amnésia e querem regressar às nacionalizações, sem a honestidade intelectual de reconhecer como estaria Portugal hoje, caso tivessem vencidos as teses contrárias à União Europeia e ao euro. No caso da CMB, não acho que a disputa seja ideológica: quem observa de fora, reconhece os excelentes trabalhos autárquicos em Serpa, Mértola e Vila Real de Santo António, para oferecer exemplos de três diferentes tons políticos! A questão local é uma questão de sobrevivência. Com a abertura do aeroporto, com a dinamização turística do Alqueva, com a instalação do primeiro centro comercial do Alentejo, Beja depara-se com um desafio decisivo, para o qual será crucial o desempenho do próximo executivo camarário: queremos que Beja seja uma cidade ou um local onde alguns teimosos insistem em morar e morrer?

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