O que faz falta…

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Alberto Matos

dirigente do BE

Há 50 anos, no Dia do Estudante, a polícia de choque invadiu a Cidade Universitária de Lisboa, encerrando associações de estudantes, acusadas de subversão pelo Governo de Salazar. No dia da greve geral, a polícia de choque varreu o Chiado, agrediu jornalistas e manifestantes anti-austeritários que o Governo e o Presidente da República se apressaram a classificar de “desordeiros”.
Além de reavivar memórias dum passado negro, a conclusão a tirar é que se Portugal não é a Grécia, parece! Aliás, os relatórios das “secretas”, sucedâneos incompetentes da PIDE, previam para o dia da greve geral “distúrbios graves”, à imagem da Praça Sintagma. Acertaram apenas na brutalidade policial, falta ainda a combatividade dos manifestantes gregos que levam dois anos e muitas greves gerais de avanço…
António Borges, que acumula a presidência da comissão de privatizações com a administração do grupo Jerónimo Martins, deu parabéns ao Governo por conseguir o mesmo efeito duma desvalorização da moeda, impossível com o euro: a quebra brutal dos salários reforçaria a competitividade da economia – como está à vista, com uma recessão acima de 3%… E tudo isto sem grandes contestações. “Portugal não é a Grécia” – até ver!
E o assalto ao salário vai agravar-se com o pacote laboral do roubo de horas extraordinárias, férias e feriados, despedimentos mais baratos e arbitrários, num país com o desemprego oficial a rondar 15% e os maiores níveis de precariedade e desigualdade da Europa. A maioria de direita aprovou e o PS, fiel ao acordo com a “troika”, absteve-se como Pilatos…
Em Espanha, a greve geral de 29 de Março teve o apoio das Comissiones Obreras e da UGT. Com a austeridade, todos os trabalhadores europeus se verão gregos, a prazo mais ou menos curto. Fará todo o sentido uma greve geral europeia contra o pacto “Merkozy” que impõe o limite de 0,5% do PIB ao défice, uma pena de recessão e austeridade perpétuas.
Os povos europeus não podem confiar o seu futuro nas mãos de governos que os têm levado à desgraça e devem exigir a realização de referendos ao novo tratado, o que se justifica ainda mais em Portugal, pois nunca fomos consultados sobre a adesão à CEE e ao euro, nem sobre os tratados de Maastricht, Nice e Lisboa.
Mas a fúria do Governo não é só económica e social, ela tem expressão política na extinção de freguesias e também de municípios, anunciada na véspera do Congresso do PSD por Miguel Relvas – “o bulldozer do Governo”, segundo a opinião insuspeita de Luís Filipe Menezes.
A resposta das autarquias vai descer à rua na manifestação de 31 de Março. Mas só será vitoriosa se ousar apoiar-se na vontade popular, levando a cabo referendos locais que suportem os pareceres negativos sobre a proposta de lei do Governo.

<b>Nota sobre
a falta de vergonha</b>
Zélia Afonso viu-se obrigada a emitir uma nota de protesto contra o (ab)uso de versos do poeta e cantor no Congresso do PSD, lembrando que “se fosse vivo, José Afonso estaria na primeira fila dos que hoje, em Portugal, combatem a política neoliberal do Governo de Passos Coelho”.
Um partido do Governo dos “vampiros” teve a lata de vampirizar a obra do Zeca! A resposta seria fulminante: “Quando o pão que comes sabe a merda, o que faz falta?”…

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