O que andam a ensinar aos nossos filhos?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Luís Miguel Ricardo

Investigador na área de Educação e Formação de Adultos

Há algumas semanas atrás, uma prestigiada revista de informação semanal anunciava a saída de um brinde didáctico-educativo na edição seguinte: um mapa de Portugal em formato de puzzle acompanhado de um guia explicativo das regiões e de uma carteira de bilhetes para entradas em diversos museus da ciência. O brinde vinha recomendado para crianças maiores de seis anos.
Dada a qualidade da publicação, as características lúdico-didácticas do brinde disponibilizado por um preço simbólico e o facto de ser leitor assíduo da mesma, iniciei um períplo pelas tabacarias do Porto e arredores em busca do desejado conteúdo, esgotado nos locais abordados. Situação que me aguçou mais o desejo de o encontrar. Consegui descobri-lo numa estação de serviço já para os lados do sul.
Antes de abrir o brinde, folheei a revista-mãe, que exibia em letras garrafais o principal tema de reportagem “O que andam a aprender os nossos filhos?”. No miolo da publicação surgia um artigo de fundo sobre os objectivos e as metas que servem para aferir as competências das crianças portuguesas e sobre as alterações previstas pelo executivo governamental para o próximo ano lectivo.
Início do primeiro período escolar, destaque natural à temática da educação e um brinde adequado ao contexto. Tudo parecia harmonioso até ao momento em que comecei a dissecar o conteúdo do desejado puzzle lúdico-didáctico. Esboçando um olhar sobre o mapa desenhado na caixa e repetido na capa do guia comecei a desconfiar da qualidade pedagógica do produto. Cada região surgia associada a um símbolo ícone: em Lisboa os eléctricos e as caravelas do Tejo, em Santarém os campinos, na Guarda a Serra da Estrela, no Porto o vinho, e por aí afora até chegarmos a Beja e à elucidativa imagem de uma árvore de copa larga com um boneco recostado ao tronco a ressonar com intensidade (a ver pelos “Zs” que lhe emergiam da boca).
Curioso e ainda colocando a hipótese de ter sido eu a criar expectativas erradas sobre o brinde (não se tratando de um guia educativo, mas sim humorístico), consultei o índice e desloquei-me para a página em que os autores do guia se pronunciavam sobre Beja. Pasmei. Reforcei a ideia de que se poderia tratar de um guia humorístico e consultei as outras regiões. A respeito do distrito de Braga falava-se do galo de Barcelos, de Guimarães e dos monumentos que povoam a região. A Coimbra atribuíam-se os fados e as tradições académicas. Sobre Aveiro surgiam os moliceiros da ria. E sobre as outras regiões, à excepção de Beja, desfilavam outros ícones abonatórios para as mesmas, mostrando o que cada uma tinha de melhor e de mais característico.
Sobre Beja, a capital da maior região país, que se destaca a nível nacional e internacional pela riqueza da sua costa marítima (Costa Vicentina), por possuir o maior lago artificial da Europa (Alqueva), por ser a principal produtora nacional de azeite e cortiça, por exibir imponentes vestígios romanos e árabes, por ostentar a torre de menagem mais alta da Península Ibérica (castelo de Beja), e por muitas outras riquezas dignas de constarem em qualquer guia sobre a região, surgia o texto que me fez pasmar:
“Influenciado pelos climas mediterrânicos e do Norte de África, o distrito de Beja é geralmente quente e seco, o que propicia a personalidade descontraída dos habitantes desta área. Beja é caracterizada pelos largos campos marcados por chaparros, onde não é estranho encontrar grupos de pessoas a descansar. Os trajes típicos alentejanos são também um dos símbolos da região.”
in puzzle “Mapa de Portugal”, suplemento da revista “Visão” nº1018, de 6 de Setembro de 2012
Pasmei de novo. Depois procurei os autores do guia. Tiago Alves e Daniela Silva, surgindo este último nome associada à função de revisora científica.
À memória, e em jeito de reminiscência recente, chegou-me o título de capa da revista: “O que andam a aprender os nossos filhos?” Por indução espontânea surgiu-me a pergunta que serve de título ao presente artigo: o que andam a ensinar aos nossos filhos?
Com base no conteúdo citado, e considerando-me um razoável conhecedor do Baixo Alentejo e das suas tradições (com algumas obras publicadas sobre o tema), facilmente infiro que se andam a ensinar barbaridades e que se estão a converter mitos humorísticos em conteúdos educativos. Vivo no Baixo Alentejo, circulo pelo Baixo Alentejo, conheço o Baixo Alentejo de lés-a-lés e não me recordo de encontrar com mais frequência do que noutras regiões do país (que felizmente também conheço de lés-a-lés) pessoas “espojadas” debaixo das árvores. E depois surge a designação poética das árvores – chaparros. Um termo também altamente pedagógico para as crianças do Alentejo e do país.
Por que Alentejo terão andado os autores deste guia para formalizarem tão científicas teorias representativas? Terão percebido qual a diferença entre um chaparro e uma azinheira? Ou entre uma azinheira e um sobreiro? Ou entre um sobreiro e um chaparro? Saberão que Quercus ilex corresponde ao nome científico da azinheira? E que Quercus suber é a designação científica do sobreiro? Saberão que o fruto da azinheira (bolota) é comestível para os humanos e o fruto do sobreiro não? Que o sobreiro dá a cortiça e que a azinheira não?
É preocupante. É preocupante a falta de rigor de quem publica textos numa revista de dimensão nacional dirigidos a públicos tão especiais (crianças); é preocupante a supervisão editorial que deixa sair conteúdos auto definidos educativos, mas, na prática, alicerçados em banalidades bacocas a roçar o preconceito; é preocupante o que podem vir a aprender os nossos filhos; é preocupante a forma como se descaracteriza a identidade cultural de uma região.
Termino este artigo citando o ilustre pensador alemão Ludwig Wittgenstein: “Daquilo que não se sabe o melhor é guardar silêncio.”

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